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“Torre de Papel”: entendendo a escrita das crianças


Recentemente uma conhecida revista de circulação nacional publicou uma matéria sobre o tema “dislexia”, definida como um “distúrbio ou transtorno de aprendizagem na área da leitura, escrita e soletração”, conforme Associação Brasileira de Dislexia. Segundo a fonoaudióloga (também psicopedagoga) consultada pela revista, uma pessoa disléxica pode escrever frases do tipo “O cachoco fugio. A poua voi porcurar, mas não encontorl”, ao invés de “O cachorro fugiu. A dona foi procurar, mas não encontrou”. Mas o que se pode dizer sobre tal escrita? Como refletir sobre ela? Tais erros já foram analisados, no âmbito da Lingüística, como típicos do processo de aquisição da escrita e, portanto, não são interpretados como um distúrbio, problema ou doença. 
          

As escolhas feitas pelo aprendiz da es-crita têm uma via explicativa que se relaciona com as possibilidades do sistema de escrita; além disso, tais escolhas demonstram que o aluno está aprendendo e refletindo sobre o objeto (a escrita). A escrita da palavra “fugio”, por exemplo, é um caso de hipercorreção. O que é isso? O professor Luiz Carlos Cagliari afirma, em seu livro Alfabetização e Lingüística, que a hipercorreção é muito comum quando o aluno já conhece a forma ortográfica de determinadas palavras e sabe que a pronúncia destas é diferente. Então, generaliza essa forma de escrever. No caso de “fugio” (fugiu), como muitas palavras que terminam em o são pronunciadas com u (Paulo, limpo, pano, menino, etc.), o aprendiz escreve todas as palavras com o som de u, no final, com a letra o. Já a palavra “voi” (foi), também exposta nas frases, é normalmente considerada pela escola como indícios de falta de discriminação auditiva ou como uma alteração na consciência fonológica por fonoaudiólogos e psicólogos; na opinião do professor Cagliari, deveria ser entendido que a criança faz uma aproximação muito grande da letra certa, não escolhendo uma letra que nada tem a ver com o som que quer representar. 
 
E sobre a escrita da palavra “porcurar” (procurar)? O que podemos dizer? De acordo com o texto Dados da escrita inicial: indícios de construção da hierarquia de constituintes silábicos, da professora Maria Bernadete M. Abaurre do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, a escrita de tal palavra não pode ser tratada como característica de “troca de letras”. A questão “é bem mais complexa e interessante” (...); “tem relação direta com a natureza da relação entre um sistema alfabético de escrita e a hierarquia dos constituintes silábicos; trata-se de “decidir sobre o número de segmentos que devem ser representados, bem como a posição que devem ocupar na estrutura das sílabas”. Segmentos em posições de sílabas com estrutura mais complexa que CV (consoante-vogal) são mais difíceis de serem representados na escrita inicial, como é o caso da sílaba “pro” (da palavra “procurar”) que tem duas consoantes e uma vogal (CCV).
 
Portanto, ao refletirmos sobre a escrita das crianças, observamos que dificuldades como essas não são insuperáveis, pois as crianças constantemente formulam e reformulam suas hipóteses. Nesse sentido, o papel do professor é de suma importância. Para refletirmos sobre tal importância podemos citar o caso da criança MV - de 8 anos, aluno do primeiro ciclo do ensino fundamental - que escreveu “Torre de Papel” no lugar de “Torre de Babel”, ao descrever uma história da Bíblia. Em uma interação com a criança, o professor poderia perguntar-lhe: “mas a torre era de papel?” (que interrelaciona os níveis fonológico e semântico da língua) na tentativa de levar a criança a transitar entre os diferentes sentidos das palavras Babel (um lugar) e papel (um material). Outra estratégia poderia ser a releitura do próprio texto feito pela criança e do texto de onde a criança retirou a terminologia “Torre de Babel” (nesse caso, poderia ser, por exemplo, o trecho de uma Bíblia infantil). Outro fator a ser considerado é o seguinte: levantando-se a hipótese de que a criança fale “torre de papel” e não “torre de Babel”, o professor não deve pensar que ela escreve “papel” porque fala “papel” em vez de “Babel”; isso seria acreditar que a escrita é uma mera transcrição da fala, o que não é verdade. Sobre isso, a professora Maria Bernadete M. Abaurre, em seu texto “O que revelam os textos espontâneos sobre a representação que faz a criança do objeto escrito?” relata, que em todo o material de produção escrita espontânea de crianças em fase de alfabetização examinado por ela e por outros pesquisadores com os quais trabalha nunca se deparou com um único caso que pudesse ser considerado como uma simples tentativa de transcrição da fala. Conforme destaca a professora, a tarefa do aprendiz de escrita é muito mais complexa do que uma tentativa de transcrever a fala, e o mais importante é que ele parece perceber logo no início do processo de aprendizagem, tal complexidade; “ninguém se programa para simplesmente 'escrever como fala'”. Aliás, a criança também usa a escrita para levantar hipóteses sobre a própria fala, conforme afirmam os professores já mencionados.
 
Ao refletirmos sobre a escrita das crianças, devemos sempre considerar a linguagem em seu funcionamento, bem como o trabalho lingüístico-cognitivo das crianças que aprendem; assim não iremos patologizar o que é normal. Conforme afirmam as professoras Maria Irma Hadler Coudry e Ester M. Scarpa do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, “certos diagnósticos, que têm sido elaborados pelos diversos domínios que lidam com fenômenos de patologia da linguagem, podem revelar operações específicas do sujeito”.  
 
Diagnósticos - como o de dislexia - e determinados testes aplicados em crianças em idade escolar - como o teste de processamento auditivo e a prova de consciência fonológica - devem ser discutidos, principalmente pelos efeitos nocivos que podem deixar na vida das crianças.

Quando procuramos entender a escrita das crianças, por um lado, e analisar testes como supramencionados, por outro, observamos que muito do que se afirma como patológico, não é, conforme demonstra a autora deste artigo em seu texto intitulado “O que a Neurolingüística Discursiva tem a dizer sobre o processamento auditivo”, a ser publicado em livro organizado por Maria Irma Hadler Coudry, Fernanda Maria Pereira Freire e Mara Lúcia F. de Andrade do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, bem como no texto “Prova de consciência fonológica: o que fazem as crianças [e adultos] quando erram e acertam?”, em co-autoria com a lingüista Francine Marson Costa, a ser publicado no mesmo livro.

procurar? O que podemos dizer? De acordo com o texto Dados da escrita inicial: indícios de construção da hierarquia de constituintes silábicos, da professora Maria Bernadete M. Abaurre do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, a escrita de tal palavra não pode ser tratada como característica de “troca de letras”. A questão “é bem mais complexa e interessante” (...); “tem relação direta com a natureza da relação entre um sistema alfabético de escrita e a hierarquia dos constituintes silábicos; trata-se de “decidir sobre o número de segmentos que devem ser representados, bem como a posição que devem ocupar na estrutura das sílabas”. Segmentos em posições de sílabas com estrutura mais complexa que CV (consoante-vogal) são mais difíceis de serem representados na escrita inicial, como é o caso da sílaba “pro” (da palavra “procurar”) que tem duas consoantes e uma vogal (CCV).
 
Portanto, ao refletirmos sobre a escrita das crianças, observamos que dificuldades como essas não são insuperáveis, pois as crianças constantemente formulam e reformulam suas hipóteses. Nesse sentido, o papel do professor é de suma importância. Para refletirmos sobre tal importância podemos citar o caso da criança MV - de 8 anos, aluno do primeiro ciclo do ensino fundamental - que escreveu “Torre de Papel” no lugar de “Torre de Babel”, ao descrever uma história da Bíblia. Em uma interação com a criança, o professor poderia perguntar-lhe: “mas a torre era de papel?” (que interrelaciona os níveis fonológico e semântico da língua) na tentativa de levar a criança a transitar entre os diferentes sentidos das palavras Babel (um lugar) e papel (um material). Outra estratégia poderia ser a releitura do próprio texto feito pela criança e do texto de onde a criança retirou a terminologia “Torre de Babel” (nesse caso, poderia ser, por exemplo, o trecho de uma Bíblia infantil). Outro fator a ser considerado é o seguinte: levantando-se a hipótese de que a criança fale “torre de papel” e não “torre de Babel”, o professor não deve pensar que ela escreve “papel” porque fala “papel” em vez de “Babel”; isso seria acreditar que a escrita é uma mera transcrição da fala, o que não é verdade. Sobre isso, a professora Maria Bernadete M. Abaurre, em seu texto “O que revelam os textos espontâneos sobre a representação que faz a criança do objeto escrito?” relata, que em todo o material de produção escrita espontânea de crianças em fase de alfabetização examinado por ela e por outros pesquisadores com os quais trabalha nunca se deparou com um único caso que pudesse ser considerado como uma simples tentativa de transcrição da fala. Conforme destaca a professora, a tarefa do aprendiz de escrita é muito mais complexa do que uma tentativa de transcrever a fala, e o mais importante é que ele parece perceber logo no início do processo de aprendizagem, tal complexidade; “ninguém se programa para simplesmente 'escrever como fala'”. Aliás, a criança também usa a escrita para levantar hipóteses sobre a própria fala, conforme afirmam os professores já mencionados.
 
Ao refletirmos sobre a escrita das crianças, devemos sempre considerar a linguagem em seu funcionamento, bem como o trabalho lingüístico-cognitivo das crianças que aprendem; assim não iremos patologizar o que é normal. Conforme afirmam as professoras Maria Irma Hadler Coudry e Ester M. Scarpa do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, “certos diagnósticos, que têm sido elaborados pelos diversos domínios que lidam com fenômenos de patologia da linguagem, podem revelar operações específicas do sujeito”.  
 
Diagnósticos - como o de dislexia - e determinados testes aplicados em crianças em idade escolar - como o teste de processamento auditivo e a prova de consciência fonológica - devem ser discutidos, principalmente pelos efeitos nocivos que podem deixar na vida das crianças. Quando procuramos entender a escrita das crianças, por um lado, e analisar testes como supramencionados, por outro, observamos que muito do que se afirma como patológico, não é, conforme demonstra a autora deste artigo em seu texto intitulado “O que a Neurolingüística Discursiva tem a dizer sobre o processamento auditivo”, a ser publicado em livro organizado por Maria Irma Hadler Coudry, Fernanda Maria Pereira Freire e Mara Lúcia F. de Andrade do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, bem como no texto “Prova de consciência fonológica: o que fazem as crianças [e adultos] quando erram e acertam?”, em co-autoria com a lingüista Francine Marson Costa, a ser publicado no mesmo livro.


"...a tarefa do aprendiz de escrita é muito mais complexa do que uma tentativa de transcrever a fala, e o mais importante é que ele parece perceber logo no início do processo de aprendizagem"
 
 
 
 
 
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