Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

Comentando um texto e uma questão da ESAF …

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

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Alguns comentários sobre o texto:

 

 - Após o final do texto, vemos parte de sua referência (o título) – Racionalidade e acaso – expresso entre parênteses, o que já nos dá uma idéia do assunto a ser tratado.  

- Logo na L1, o autor do texto menciona o acaso e diz que tal tema está ligado a um outro: o da razão. Pelo seu título e sua introdução, portanto, inferimos que o autor tratará dos temas acaso e razão, bem como da ligação existente. Mas que ligação é essa? De complemento, causa e conseqüência, oposição, condição?
 
- Fala, em seguida, do empenho do pensamento filosófico na Grécia antiga, de querer vencer a sujeição ao acaso, dando a entender que a sujeição ao acaso é algo negativo para os gregos; é digna de querer ser vencida. 

- O autor apresenta um dos traços do homem primitivo: deixar-se surpreender pelo acaso, em guiar-se pelo imprevisível (L.7 e 8). Essa é uma idéia oposta à apresentada anteriormente (de quem quer vencer a sujeição ao acaso). Vemos, portanto, uma oposição entre o pensamento filosófico na Grécia antiga (homem racional) e o homem primitivo.  

 

- Logo no início da L.9 vemos tal oposição sendo reforçada pela expressão “já o homem racional” (oposição ao homem primitivo que guiava-se pelo imprevisível). A palavra “já”, neste caso, remete o leitor ao que foi dito e dá uma idéia de oposição, diferença; o autor anuncia que falará algo oposto ao que foi dito.

 

- O texto traz nas L. 13 e 14 uma expressão de difícil entendimento para leitores não familiarizados com o tema: “comércio racional do homem com o seu meio ambiente”. Mas é no próprio texto que devemos desvendar o seu sentido, quando o autor diz “mais precisamente: (…)” (Atenção! Pela expressão “mais precisamente” e pelo sinal de dois-pontos, identificamos que o autor irá explicar aquela desconhecida). 

 

- “A postura racional” (L. 14) indica que é aquela do homem racional, diferente da postura do primitivo. Tal postura designa um comportamento de dominação (e não mais de sujeição).

 

Comentários das Alternativas:

a)      Errada. O texto diz que “nem seria errôneo afirmar que o empenho maior…”, bem diferente de “seria errôneo afirmar que nem o empenho”.

b)      Correta.

c)      Errada. O texto não falou em errôneas preocupações do pensamento filosófico. “Errôneo” se refere à afirmação (“Nem seria errôneo afirmar que o empenho maior… resume-se em querer vencer a sujeição ao acaso”).

d)      Errada. O texto não fala em racionalidade no comércio e meio ambiente. A palavra “comércio”, no texto, foi usada em sentido não usual; não tem nada a ver com estabelecimento comercial ou negócios. “Estabelecendo as bases para um comércio racional…” diz respeito ao que a postura racional passou a designar (L. 14, 15, 16 e 17).

e)      Errada. A dicotomia (entre o homem  primitivo e o racional) guia-se pelo racional? Essa é uma relação incoerente.

Questão da FGV – Fiscal de Rendas / 2008

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Em resposta ao comentário do Luiz Roberto…

Antes de comentar uma questão da FGV, gostaria de ”falar” outras coisas… Quando se fala em interpretação de textos, o que vem à mente da maioria dos candidatos a concursos são questões no padrão das instituições mencionadas pelo Luiz. Só isso! A “disciplina” de Interpretação de Textos, portanto, fica restrita àquilo que geralmente aparece nas provas. Essa é a razão de muitos concurseiros terem se dado mal – como ele disse – nas recentes provas da FGV.

Deram-se mal porque a FGV, de fato, explorou alguns aspectos lingüísticos (semânticos) envolvidos na interpretação; elaborou questões, não para confundir, mas para pensar… questões que exigiam do candidato conhecimentos de conceitos semânticos (de pressupostos e subentendidos, por exemplo). Apesar de a maior parte das instituições ainda não explorar tanto os aspectos de base semântica/lingüística, acho que já melhoraram e que melhorarão muito… muito. O fato mencionado pelo Luiz Roberto - de candidatos terem se dado mal nas recentes provas da FGV – já ocorreu também com aqueles que fizeram, por exemplo, provas elaboradas pela Fumarc, uma instituição de Belo Horizonte-MG. Alunos me pediam recurso em questão (sobre implícitos) que não cabia qualquer recurso (sugiro que veja a questão no blog e tente resolvê-la, explicitando a razão de sua escolha. Prometo envio de resposta). O negócio é esse: estudar interpretação com uma base Semântica/Lingüística. Quem for por esse caminho certamente alcançará bons resultados. E o blog tem também essa intenção: mostrar que há N aspectos e conceitos envolvidos na interpretação.
 Bom… agora vamos ao comentário de uma questão elaborada pela FGV (Cargo de Fiscal de Rendas/Secretaria de Estado de Fazenda do Estado do RJ – 2008).A questão é a seguinte:

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A questão exigia que o aluno soubesse identificar as informações implícitas e, ainda, fosse capaz de fazer a distinção entre os pressupostos e subentendidos, dois tipos de informações implícitas. Trata-se de um tema bastante conhecido na Lingüística.

 Uma diferença entre pressupostos e subentendidos é que o primeiro decorre necessariamente de algum elemento lingüístico colocado na frase. Já o segundo é de responsabilidade do ouvinte; o falante pode esconder-se atrás do sentido literal das palavras e negar que tenha dito o que o ouvinte depreendeu de suas palavras. Certos advérbios (totalmente, provavelmente, normalmente etc.), por exemplo, marcam a pressuposição dos enunciados. Ex: suponha que alguém pergunte a um advogado: “Em que dia você está no escritório?”, e ele responda: “Normalmente estou lá todos os dias”. O uso desse advérbio pode ser encaixado entre aqueles que criam como efeito de sentido a atenuação do conteúdo da proposição (Castilho, & Castilho, 2002), ou seja, o advogado afirma estar no escritório todos os dias, mas não se compromete com tal afirmação, pois, afinal, pode não estar em algum dia.No item I da questão da FGV vemos que o termo “também” colabora com a identificação do seguinte pressuposto: a necessidade (…) se dá não somente no que tange aos recursos públicos, mas também no que tange a outros fatores (que não os recursos públicos). Item correto.No item II, a expressão “não mais” em “não mais se concebe uma atuação estatal efetiva (…)” pressupõe que já houve um tempo em que uma atuação estatal era concebida sem uma apurada reflexão sobre os gastos públicos. Item correto.

No item III só é possível entender a que se refere “o primeiro” e “o segundo” quando retornamos ao texto. De acordo com a leitura, “o primeiro” diz respeito ao primeiro tema, isto é, à “correlação entre metas e riscos fiscais”; “o segundo” diz respeito ao segundo tema, isto é, ao “impacto dos déficits públicos sobre as futuras gerações”. Tais temas não são subentendidos. Não há razão para se falar em subentendido no item III. Aliás, o uso de “normalmente” em “enquanto o primeiro, normalmente, se adstringe a situações futuras (…)”, atenua o conteúdo da proposição. O autor afirma que o primeiro se adstringe (…), mas não se compromete com tal afirmação; pode ser que em algum momento o primeiro não se adstrinja (…), uma informação pressuposta.

Excelente comentário, Luiz Roberto. Muito obrigada!

Questão 7 – AFRF/2005 (Prova 1)

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

a) Errada. A forma verbal “detêm” está no plural para concordar com “médias” (cidades), algo que pode ser concluído pelo uso do elemento coesivo “que” após “médias”. O “que”, neste caso, faz referência às cidades médias: “(…) a desesperança nas cidades pequenas empurra a força de trabalho para as médias, QUE detêm maior dinamismo econômico”. As cidades médias detêm o dinamismo econômico, mas as pequenas não.

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b) Errada. Concorda com “a carga da pesada máquina administrativa”. Ora, o que é paga é a “carga da pesada máquina”, não a “máquina administrativa”.

c) Correta.

d) Errada. Não prejudica a correção do período. Os dois-pontos são empregados basicamente para introduzir algo que vai ser citado ou esclarecido.

e) Indica que se pode subentender após o artigo a repetição da palavra “ausência”; a “ausência” do crescimento econômico e a “ausência” de política urbana.

Palestra a Candidatos a Concursos Públicos

Os slides seguintes foram apresentados durante uma palestra ao curso preparatório para concursos, Orvile Carneiro, Belo Horizonte-MG.

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6 outubro 2017
Daniela: Sua explicação foi simples e objetiva. Me ajudou muito. Obrigada...
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Carla Queiroz Pereira: Que bom, Carolina! Aproveite o blog! Beijo grande....
Carolina: AMEI a sua explicação, professora! Farei esse tema para a nossa próxima redação! :) S...
michele: Olá Carla, Li seu artigo sobre as discursivas e concordo com o que você disse, princ...
Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br