Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

Interpretação de textos – Questão comentada da FCC!!!

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Analista Administrativo – MPU/2007 (FCC)


A) No que tange à elaboração das bases das experiências de vida, o ocidente se diferencia de outras partes do mundo. Enquanto nessas há somente influência das tradições étnicas e locais, bem como dos sistemas religiosos, naquele, a prática de pensamento na função de elaborar tais bases é a ciência, somada às tradições étnicas, locais etc.
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Prova CESPE – PGE/PA

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Comparando-se o texto com a figura acima apresentada, é incorreto afirmar que ambos abordam
A) a associação da infração à lei com as tecnologias atuais.
B) a total indiferença dos que assistem a um delito praticado na rua.
C) formas de controle dos indivíduos.
D) outra face das novas tecnologias.

Dê sua resposta e tente justificá-la com base na charge apresentada!!!

Quando há duas alternativas

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

A pessoa que enviou esse e-mail me permitiu postá-lo no blog. Trata-se de uma pergunta sobre qual seria a alternativa correta de uma dada questão. Veja:

Apliquei uma prova de interpretação de texto para meus alunos, e me questionaram a correção de uma das perguntas. A questão (tirada da internet) é:

Assinale a opção que melhor corresponde à frase atribuída a Aristótles:
“Somente o homem é um animal político, isto é, social e cívico,porque somente ele é dotado de linguagem.”

a) O homem tem consciência da importância da política.
b) A linguagem torna o homem um ser social e, portanto, político.
c) Somente o homem é capaz de fazer política.
d) É impossível viver em uma sociedade sem fazer política.
e) A política é o único objetivo da linguagem.

Considerei correta a alternativa (b), mas quando uma aluna me questionou sobre a alternativa (c) eu fiquei na dúvida. Será que as duas estão certas?

Resposta enviada:

De fato, sua aluna não está totalmente equivocada ao apontar a letra C como também associada à frase, afinal, a alternativa não contradiz as relações de sentido que podemos ver no exemplo. Se o homem é dotado de linguagem e é essa que o permite ser político e social (que o torna político e social), somente ele é capaz de fazer política (alternativa C), certo? Acontece, porém, que o enunciado da questão solicita “a opção que melhor corresponde à frase”, logo, se ele pede a “melhor”, já levantamos a possibilidade de mais de uma alternativa não estar totalmente incorreta (em termos de sentido… de interpretação). Se há duas (B e C) que estão de acordo com a frase, há uma delas que melhor corresponde. No caso, é a letra B mesmo. Por quê? Porque somente nela está expressa a relação entre a linguagem e o ser homem como sujeito social e político: “a linguagem torna o homem um ser social…”.

Observe que a alternativa C não fala nada sobre a linguagem como aquela que permite ao homem ser um animal político; fala, simplesmente, que somente o homem é capaz de fazer política. A letra B, ao contrário, diz isso e ainda explicita a razão de o homem ser um animal político.

As relações de sentido aqui expostas foram possíveis por causa de dois conectivos (elementos de coesão ou operadores argumentativos) muito importantes na frase: “isto é” e “porque”. Legal, né!

TRT-2ªRegião (Téc. Jud.): comentários das questões de interpretação

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Olá, colegas “concurseiros”!

Recebi alguns e-mails de candidatos que prestaram o concurso do TRT-2ª Região (Técnico Judiciário/área administrativa), solicitando comentários das questões de interpretação do segundo texto da prova (aquele sobre conflito público de opiniões, pesquisa de opinião…) elaborada pela FCC (Fundação Carlos Chagas). Então, vamos lá! Por enquanto, apresento comentários das questões 12 e 13 (numerações das questões apresentadas na prova “Tipo 002”), ok!?

O texto apresentado trata de um tema mais familiar aos profissionais da área de Comunicação Social, uma possível razão para a queixa dos candidatos de que o texto estava difícil. Aliás, as bancas têm feito isso: apresentam um texto com tema muito específico – antropologia, filosofia etc. – na tentativa de assustar os candidatos e fazer com que gastem preciosos minutos na busca pela atribuição de sentido, linha por linha, palavra por palavra. É claro, durante a leitura de qualquer texto somos guiados pelo sentido daquilo que lemos, mas a questão é: será que a banca quer que eu compreenda plenamente o texto lido? Quando vamos às questões de diversas provas, percebemos que não estão exigindo que o candidato atribua sentido a todo o texto, mas somente que ele demonstre saber estabelecer relações de sentido entre uma parte e outra (vou explicar o que é isso ao comentar as questões). …

Veja o arquivo por completo:

comentario-interpretacao-trt

CESPE – TJRJ – Técnico de Atividade Judiciária – questão comentada

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Tenho recebido alguns e-mails com perguntas sobre “dêixis”, “dêiticos”.
Um deles trouxe a seguinte questão do CESPE (TJRJ – Téc. Jud.):

Sabemos que a ferramenta súmula vinculante é poderosa, mas o enunciado tem de ser muito claro e preciso para que os resultados sejam os melhores. Ao tornar-se obrigatória não apenas para as diversas instâncias do Poder Judiciário, mas também para a administração pública, muita boa súmula pode de fato diminuir o número de processos. Na medida em que vincula o poder público a um certo entendimento em questões tributárias ou previdenciárias, por exemplo, ela diminuirá os casos em que o contribuinte sentirá necessidade de recorrer à justiça. Gostaria de ressaltar que a súmula vinculante também aumenta a segurança jurídica. Acabam aquelas situações em que, em um mesmo assunto, um cidadão recebe uma sentença e o seu vizinho, a sentença oposta.

QUESTÃO 9

Assinale a opção em que a forma verbal está empregada em função de dêixis, por referir-se ao sujeito autor do texto.

A) “tem de ser”

B) “tornar-se”

C) “vincula”

D) “gostaria”

E) “recebe”

COMENTÁRIO

No texto a seguir, utilizo um nome próprio (Richard) que não guarda qualquer relação com o candidato que enviou o e-mail.

Eis aqui o comentário:

Comecemos com um exemplo:

Suponha que eu diga a você: “então, Richard, ele esteve em minha casa hoje”. Certamente você me olhará com “aquela” cara e dirá: “Carla, tudo bem, mas quem esteve em sua casa?”. Portanto, Richard, só dá para você saber quem é esse “ele”, se antes do enunciado dito por mim, tivermos falado sobre alguma pessoa (o Paulo, o Fábio, o Adão etc.). Isso significa que “ele” é interpretado deiticamente, depende de outra informação, depende da referência. No caso, se não tivermos o Paulo, o Fábio ou o Adão como referência, “ele” é uma palavra que não tem como ser interpretada.

Mais um exemplo:

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Questão FGV – Você já ouviu falar em dêixis… dêiticos?

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

As provas de concursos da FGV são conhecidas por cobrarem conceitos pouco vistos em provas da ESAF ou do CESPE. Na prova para Fiscal de Rendas da Sec. Est. Fazenda/RJ – 2008, por exemplo, algumas questões de português exigiram conhecimento de conceitos bem específicos; eu diria até que exigiram conceitos semânticos mais conhecidos por quem atua na área de Lingüística. Veja só a questão seguinte:

5. No trecho “O avanço deste não acarreta necessariamente impacto positivo
daquela”, os pronomes demonstrativos exercem, respectivamente, função:

(A) anafórica e catafórica.
(B) catafórica e catafórica.
(C) anafórica e anafórica.
(D) catafórica e anafórica.
(E) dêitica e dêitica.

Bom, o trecho do enunciado da questão é referente a um dos textos expostos na prova. Se o candidato consultasse o texto para entender a que os pronomes “deste” e “aquela” faziam referência, iria ler o seguinte: “(…) A alocação de novos recursos nada tem a ver, em princípio, com o impacto tecnológico. O avanço deste não acarreta necessariamente impacto positivo daquela”.

O uso do pronome demonstrativo “deste” serve para retomar outra passagem do texto, ou seja, faz referência ao impacto tecnológico; o pronome demonstrativo “daquela”, por sua vez, faz referência à alocação de novos recursos. Esse fenômeno, chamado anáfora, garante a coesão do texto e diz respeito a pessoas e objetos, tempos, lugares, fatos etc. mencionados em outros pontos do mesmo texto. Na questão, portanto, os pronomes “deste” e “daquela” exercem função anafórica (alternativa C).

Há casos, porém, em que os termos anunciam/antecipam outros. Por exemplo, na frase “Minha irmã disse isto: já está na hora de almoçar”, isto antecipa já está na hora de almoçar. Esse fenômeno é chamado de catáfora.

Na alternativa E, vemos a função dêitica. Você já ouvir falar nisso? Conforme explicação do prof. Rodolfo Ilari/Unicamp, em seu livro “Introdução à semântica: brincando com a gramátia”, chamamos de dêiticas as expressões que se interpretam por referência a elementos do contexto extra-lingüístico em que ocorre a fala. A dêixis diz respeito principalmente às pessoas que participam da interação verbal, ou a lugares e tempos que são localizados a partir da situação de fala. Ela realiza uma espécie de “ancoragem” da fala na realidade. Ocorre sobretudo por meio dos pronomes, dos artigos, dos tempos dos verbos e de certos advérbios.

Para entender a importância dessa “ancoragem”, convém imaginar a dificuldade que teríamos para entender de quem partiu um pedido de socorro trazido pelo mar numa garrafa fechada, sem data, sem referência a lugares e assinado por um desconhecido (Ilari, 2001).

Um outro exemplo: imagine que você trabalhe em uma empresa e está ansioso por uma reunião que ainda deve acontecer. Está tão ansioso que alguns colegas até sabem disso. Antes de a esperada reunião acontecer você é convocado para fazer uma viagem, também pela empresa. Após 4 dias fora, ao entrar em casa, no final da manhã, encontra o seguinte bilhete próximo à porta de entrada:

A questão é: Quem esteve em sua casa? Em que dia esteve? A reunião já aconteceu ou não?
Tais perguntas surgem, portanto, porque “estive” e “hoje” são expressões interpretadas deiticamente. O “hoje” do autor do bilhete pode ser diferente do “hoje” do destinatário. Sem a data no bilhete, por exemplo, você não conseguirá saber se a tão esperada reunião já aconteceu ou não.

Questão comentada – AFRF/2005 – ESAF

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

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Para responder à questão, o candidato deve entender as relações de sentido estabelecidas entre as partes do texto, o que pode ser visualizado através do seguinte esquema:

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a) Correta. As relações em dois sentidos dizem respeito ao modo como a comunicação eletronicamente mediada (modo de informação) desafia, e ao mesmo tempo reforça, os sistemas de dominação.

b) Correta. A reconfiguração da linguagem constitui sujeitos fora do padrão do indivíduo racional e autônomo. Esse indivíduo, também familiar e moderno, é deslocado em favor de um que seja múltiplo, disseminado e descentrado. Essa é a reconfiguração dos sujeitos sociais, mencionada na alternativa.

c) Correta. O autor do texto diz que o sujeito múltiplo, disseminado e descentrado é interpelado continuamente como uma identidade instável.

d) Correta. Em minha opinião, a banca extrapolou a relação de sentido estabelecida pelo autor do texto. O autor, nas linhas 14, 15 e 16 diz que “essa instabilidade coloca tanto perigos como desafios que se tornam parte de um movimento político”. Portanto, são os desafios e perigos que se tornam parte de um movimento político, não a instabilidade como exposto na alternativa. Passemos, então, para a próxima alternativa.

e) Errada. Os perigos e desafios, o movimento político, bem como a condução a um desafio fundamental às instituições e estruturas sociais modernas são itens tratados pelo autor como tendo relação com a identidade instável do sujeito múltiplo, disseminado e descentrado. A instabilidade mencionada na linha 14 (“essa instabilidade”) é a do sujeito múltiplo, disseminado e descentrado. O texto também não falou em desafio dos fundamentos das instituições, mas em desafio fundamental, o que é bem diferente.

Elementos coesivos não servem só para ligar!

Muitas vezes os alunos que estão se preparando para concursos ou mesmo aqueles da área de Letras vêem os elementos coesivos de um texto apenas como palavrinhas que ligam uma frase a outra; até decoram o tipo de relação que um determinado elemento estabelece entre as partes de um texto. Decoram, por exemplo, que o MAS estabelece uma relação de oposição, o SE, de condição etc. Isso é pouco… muito pouco. Precisamos entender não somente o tipo de relação, mas, também, as implicações para o sentido.  

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Vejam só essa questão que caiu em uma prova elaborada pela Unicamp:

Dois adesivos foram colocados no vidro traseiro de um carro:

em cima: DEUS É FIEL

e bem embaixo: PORQUE PARA DEUS NADA É IMPOSSÍVEL

É possível ler os dois adesivos em seqüência, constituindo um único período. Neste caso,

a) o que se estaria afirmando sobre a fidelidade?

b) o que o dono do carro poderia estar querendo afirmar sobre si mesmo?

Agora que você já refletiru sobre o sentido e tentou responder, veja a resposta esperada pela banca:

a) Estar-se-ia afirmando que a fidelidade é uma coisa impossível de se seguir.

b) O dono está querendo afirmar que ele é infiel visto que somente Deus é fiel pois fidelidadepara o dono do carro é uma coisa impossível.

 

O elemento SE e a relação semântica de condicionalidade

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Comentarei aqui uma questão da última prova da ESAF para o cargo de Auditor Fiscal da Receita Federal. Escolhi tal questão para publicar no blog depois que dei uma aula particular a um aluno que está se preparando para concursos da área fiscal. Dar aula de Interpretação de Textos é legal por várias razões. Na referida aula pude compreender que faltava ao aluno uma reflexão sobre o uso, no texto, do elemento SE… faltava entender o que era a chamada “relação de condicionalidade”.

A questão é a seguinte:

questao-esaf-coesao-pelo-se.JPG

questao-esaf-coesao-alternativas.JPG

O enunciado da questão pede que o candidato identifique a relação de condicionalidade argumentada no texto. Ele deverá, portanto, saber que o elemento SE, presente nas alternativas, estabelece tal relação. Também deverá observar qual a relação de sentido estabelecida pelo elemento SE,  nas alternativas; observar se a relação está de acordo com a argumentação construída no texto.

Antes de fazermos alguns comentários sobre o texto, vejamos um simples exemplo em que observamos o funcionamento do SE estabelecendo relação de condição:
VOCÊ PASSARÁ NO CONCURSO SE ESTUDAR MUITO.

Na frase acima, estudar muito é uma condição para ser aprovado no concurso; o SE, portanto, estabelece uma relação de condição.Voltemos à questão da prova: O texto coloca a necessidade de se criar critérios objetivos para a seleção de projetos como condição para que sejam evitados erros graves na condução de PPP. Erros – que podem custar caro para serem revertidos – só poderão ser evitados se forem criados critérios objetivos para a seleção de projetos. Essa informação não está explícita no texto; é construída após completa leitura. (É um claro exemplo de que o sentido do texto se constrói não a partir de suas partes isoladas).Tal construção se dá a partir das seguintes informações: de que “é urgentemente necessário criar critérios objetivos para a seleção de projetos” (L. 1); de que a autoridade pública deve ser obrigada a comprovar o atendimento a critérios de interesse público; de que ações do governo podem gerar graves erros na condução de  programas de parcerias público-privadas (L. 11, 12 e 13).

 

Resposta correta: D

Questão discursiva em blog para concurseiro?

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Se em um concurso não caem questões discursivas (também conhecidas como abertas), alguns podem achar desnecessária a resolução de exercícios dessa natureza. Mas, na verdade, ao resolvê-los, demonstramos toda nossa capacidade de reflexão sobre o texto lido, todos os conhecimentos mobilizados e raciocínios. É um excelente exercício que repercute diretamente na resolução de questões não discursivas. Pensando nisso…

(Unicamp/2007):

tirinha-hagar.JPG

a) O que produz a ironia nessa tira de Hagar?

A ironia é produzida pelo “claro” (afirmação) e o argumento improvável que segue. Afinal, não são muitos aqueles que fazem parte do conjunto de pessoas passíveis de serem convidadas para jantar com o rei da Inglaterra.

b) Como você interpreta a resposta de Hagar, no segundo quadrinho da tira? Justifique.

Podemos interpretar a resposta de Hagar como afirmando que boas maneiras à mesa não são importantes, sem que ele diga isso diretamente, já que isso contraria a posição da mãe, Helga, e o que se espera de uma pessoa (principalmente de um pai).

Conceito importante para solução: A ironia ocorre quando se afirma algo que, na verdade, se quer negar.

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17 abril 2017
josiane: Bom dia! Gostaria de conhecer melhor qual é a sua forma de trabalho. Quero me prepara...
Carla Queiroz Pereira: Que bom, Carolina! Aproveite o blog! Beijo grande....
Carolina: AMEI a sua explicação, professora! Farei esse tema para a nossa próxima redação! :) S...
michele: Olá Carla, Li seu artigo sobre as discursivas e concordo com o que você disse, princ...
Isadora Sampaio: Boa tarde professora Carla! Indicaram-me a senhora para fazer recurso de concurso....
Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br