Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

Quando o chefe quer saber…

Hora de escrever para o chefe. Tudo vai bem quando, de repente, preciso explicar, justificar um fato cujo texto me exige o uso do “porque”. Como é mesmo que devo escrever? Junto ou separado, com acento ou sem acento? Hum… pensando bem é melhor escolher outra palavra. Puxa, mas se eu escrever a palavra “pois”, não vai ficar muito legal. Já sei! Vou colocar um ponto final e começar outra frase, sem usar o “porque” (ou por que, ou porquê, ou por quê). Que horror! Só eliminei uma palavrinha e o texto ficou sem fluidez… cortado… sem ligação de uma parte com a outra. Daqui a pouco eu desisto de escrever e vou lá falar com o chefe.

Escrevi este texto inspirada no relato de um profissional da área de Comunicação para quem presto consultorias em linguagem escrita. Ele me disse: “Carla, quando preciso escrever algo e não sei qual a maneira correta, acabo mudando a palavra ou a frase inteira”.

Mudar a palavra ou a frase inteira pode resolver, em parte e temporariamente, o problema de quem escreve, afinal, tal mudança pode resultar em um sentido diferente do desejado. Sendo assim, por que não aprendemos logo esses diferentes usos dessa palavrinha tão importante e presente nos textos? A propósito, usei “por que” no último período. Por quê?

Vamos aos diferentes usos!

Na interrogativa direta emprega-se a forma por que:

Ex: Por que você lê este blog?

Na interrogativa direta também emprega-se por que:

Ex: Carla pergunta ao internauta por que ele lê este blog.

Na resposta a uma pergunta formulada com por que, utiliza-se porque:

Ex: Leio este blog porque através dele posso aprender e me divertir.

Em frases que contêm uma explicação, utiliza-se porque:

Ex: Vou dormir porque já está tarde.

Quando a expressão equivale a pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais, utiliza-se a forma por que:

Ex: vejo no mapa os lugares por que passamos.

Em final de frase emprega-se por quê:

Ex: Você sempre deixa de fazer as atividades. Por quê?

O substantivo porquê equivale a causa, motivo, razão:

Ex: Você poderia me explicar o porquê da falta ao trabalho?

Espero que vocês tenham gostado do texto introdutório, pois achar essas regrinhas em outros sites não é nada difícil.

Mais um texto de Sírio Possenti!!!

Língua ou gramática, eis a questão

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Uma passagem de uma coluna do professor Pasquale (Folha de S.Paulo, 08/01/2009, p. C2) fornece o pretexto para explicitar aspectos de uma questão que quase sempre são inadequadamente misturados. Começa citando um poema de Bandeira, que foi musicado por Dorival Caymmi e do qual se tratou em prova da Fuvest: “O rei atirou / sua filha ao mar / e disse às sereias: / – Ide-a lá buscar”.

A propósito das questões formuladas (uma perguntava pelo efeito expressivo de “ide” e outra mandava substituir a segunda pessoa do plural pela terceira), mas depois da segunda, que talvez até seja mais fácil que a primeira, faz o seguinte comentário: “Agora o bicho pega de vez, ao menos para quem teve o azar de estudar com “professores” que julgam que nas aulas de português só se deve falar da língua viva, da língua de hoje”.

Há vários aspectos nesta passagem que merecem comentários. As aspas em “professores” (que poderiam estar também em “professor” Pasquale, querendo), o comentário “agora o bicho pega de vez”, curiosamente depois da segunda questão, que supõe conhecimento de língua de hoje, a viva, mas, especialmente, a “mistura” implícita entre aulas de português e aulas de gramática.

Como disse, as questões da prova mandam discorrer sobre o efeito expressivo da forma “ide” e, depois, substituir esta forma pela terceira do plural – “vão”. O professor Pasquale supõe – ou permite que se suponha – que as respostas podem ser dadas com base no estudo das formas gramaticais da língua mais “antiga” e que alunos que só tivessem estudado a língua viva se sairiam mal na prova.

Ora, nada garante que quem estudou as formas antigas – a conjugação verbal como está nas gramáticas – se dê conta do efeito expressivo de uma forma mais ou menos antiga (“ide”). Muitos estudantes que têm o azar de ter “professores” que não falam do português de hoje ficam mudos diante de perguntas como essa, porque esses professores dificilmente falam de efeitos expressivos…

Mas a questão não é bem essa. A principal é a tese implícita da coluna: “estudar” formas antigas permite compreender seus efeitos. Ora, isso não é obvio. O que importa é distinguir duas coisas: estudar gramática do português e estudar português. Em tese, é perfeitamente possível estudar gramática (fazer gramática, aprender como se faz gramática) sem estudar português, no sentido de saber explicitar a relação entre o emprego de uma forma e seus efeitos de sentido.

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Redação da Abin elimina candidatos com notas altas nas provas objetivas

Passou nas objetivas, mas foi eliminado na redação

Acabei de ver as pontuações das provas objetivas e da dissertação do pessoal que fez a prova da Abin. Olha… teve gente com pontuação de 107,00 nas provas objetivas (a prova tinha 150 itens), ou seja, uma boa pontuação considerando as pontuações dos demais aprovados, bem como o fato de ser uma prova CESPE. Mas esse mesmo candidato que fez 107,00 pontos nas objetivas, fez 4,10 na prova dissertativa. Conclusão: está fora do concurso, afinal, a nota mínima exigida era 6,00. Esse é só um exemplo, pessoal. No site do CESPE podemos ver vários candidatos em situação semelhante.

Observo que muitos candidatos a concursos públicos sabem que a escrita de um bom texto não se restringe a determinados aspectos, como acentuação, pontuação, escolhas lexicais, gramática, ortografia, concordância e regência. Por isso, já aprenderam sobre a estrutura de um texto dissertativo, as informações que devem conter cada parte e, ainda, os conceitos de coesão, coerência, argumentação etc., tão falados em cursos preparatórios.

É preciso saber aplicar

É necessário que tais conceitos sejam vistos e discutidos, na prática. Não adianta só saber, por exemplo, que o elemento coesivo “se” expressa uma relação de condicionalidade. É preciso, no interior do texto, ver quais as relações de sentido foram estabelecidas pelo seu uso. Também não adianta saber o que é ambigüidade; tem que saber identificá-la em um texto real e saber desfazê-la. É por isso, também, que a escrita de um bom texto está intimamente associada à leitura. Na verdade, o processo de produção de textos envolve muitos aspectos que não trataremos agora; e o aperfeiçoamento dessa produção exige, inclusive, um leitor-interlocutor dos textos produzidos. Em muitos casos, esse leitor – profissional atuante na área – intervém no momento em que o texto está sendo produzido pelo seu autor.

Poderíamos citar muitos outros exemplos daquilo que não adianta só saber em termos de conceito, mas esse post ficaria enorme.

Regras gramaticais & Aprendizagem da Escrita – Parte I

Normalmente as pessoas pensam que a produção de bons textos está diretamente associada ao conhecimento de regras gramaticais… de análise sintática…

Gostaria, portanto, de expor um trecho do livro A Norma Oculta: língua & poder na sociedade brasileira, do professor de Lingüística da Universidade de Brasília (UnB), Marcos Bagno:

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Estruturas textuais características da língua escrita mais monitorada só podem ser apreendidas e aprendidas se a pessoa tiver contato com elas, e este contato se faz por meio da leitura e da escrita. Por isso, não adianta entupir a cabeça das pessoas com regras, exceções, nomenclaturas e definições. Não é assim que alguém vai aprender a ler e a escrever. Isso não é ‘ensinar português’, é simplesmente decorar a gramática normativa, e há muito tempo os lingüistas e educadores vêm demonstrando a inutilidade dessa prática secular. Só se aprende a ler e a escrever, por mais incrível que pareça, lendo e escrevendo. A idéia de que a boa leitura e a boa produção de textos depende do conhecimento pormenorizado da gramática normativa é uma falácia que precisa ser combatida” (Bagno, 2003, p. 188). 

Falaremos bastante sobre esse importante tema!!! 

O valor da escrita versus dificuldades de quem escreve – Parte II

Às vezes pensamos que ter dificuldades para escrever é algo que ocorre com poucas pessoas. Isso não é verdade. Minha vivência com profissionais de diversas áreas mostra que não! E as dificuldades dos escreventes não são somente aquelas citadas na parte I deste post. Veja mais algumas:

 dificuldades

  • Escrevem como se estivem conversando. É claro, há casos em que escrever dessa forma é completamente permitido. Tudo depende de o que escrevemos, para quem e com que finalidade. Se você escreve um e-mail para seu amigo e colega de trabalho contando como foi o final de semana, você escreverá de uma forma; se escreve um relatório para seu gerente relatando a visita a um cliente, a forma é outra. É uma questão de adequação.
  • Constroem um texto que mais parece uma junção de partes de outros textos. É o famoso ctrl C, ctrl V. Já que não conseguem escrever, copiam um pedacinho aqui… outro ali e pronto;
  • Usam pontuações inadequadas. Isso também é sério. Uma pontuação inadequada pode, entre outras coisas, dar um sentido diferente da intenção original.

 Essas são algumas dificuldades que repercutem diretamente no alcance dos objetivos dos profissionais, bem como na imagem que desejam construir no leitor de seus textos.

O valor da escrita versus dificuldades de quem escreve – Parte I

escrita

 

Sem dúvida alguma sabemos o valor da linguagem escrita nas relações pessoais e profissionais. Em todas as áreas do conhecimento, o uso dos textos para se estabelecer negociações, convencer o interlocutor a respeito de algo ou simplesmente para comunicar um fato, é uma prática constante. Apesar disso, não são raros os casos em que o escrevente encontra dificuldades para produzir bons textos. Por exemplo:

  • Sabem e falam o que querem escrever, mas não conseguem escrever o que sabem dizer; 
  • Utilizam períodos loooooooongos, comprometendo, assim, o sentido daquilo que escrevem. É o famoso “uma coisa puxa a outra… que puxa a outra… a outra”;
  • Não dão coesão ao texto. A impressão, quando lemos, é que uma parte não se relaciona com a outra;
  • Não expõem com clareza o conteúdo, de maneira a considerar seu leitor;
  • Escolhem palavras inadequadas à situação de uso…

 Essas são só algumas dificuldades. Existem muitas outras!

Escrever: por que muitos não aprenderam? – Parte II

Quem não tem a prática constante de leitura/escrita significativa de textos, dentro e fora da escola, e comete certos “erros” na hora de escrever, acaba sendo rotulado, equivocadamente, de disléxico por professores, fonoaudiólogos, psicólogos etc., como já vi ocorrer com N crianças, adolescentes e até jovens universitários. Eles não tinham qualquer “doença”; somente passaram por um processo de ensino da leitura e escrita em que não lhes foi dado um espaço para o errar e o reconstruir de maneira inteligente, para o pensar e o refletir.

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Só para não acharem que é um exagero tudo isso que estou falando, vou contar um caso (se quiserem posso contar outros): recentemente uma aluna do curso de Letras de uma universidade particular me disse que a professora propôs a seguinte redação em sala de aula: “escrevam um texto com o provérbio ‘o mesmo risco que corre a minhoca, corre também a enxada’”. Então lhe perguntei: “qual foi sua sensação ao tentar escrever?” Ela me disse: “Eu simplesmente não tinha nada pra dizer… como a maioria dos alunos, eu nem conhecia aquele provérbio… aí tentei achar um sentido, mas não gostei do meu texto”. Percebendo que a aluna não entendeu o porquê da sensação que lhe gerava culpa, comecei a explicá-la sobre o que já disse aqui…dos requisitos para se produzir um texto etc.

Para você, o que é escrever bem?

Alguns diriam que escrever bem é dominar bem as regras gramaticais. Outros diriam que é escrever de forma objetiva, não sendo prolixo. Será só isso mesmo?

Para respondermos tal questão, vejamos o cartaz seguinte, afixado na porta de acesso aos banheiros de uma Faculdade:

cartaz unicamp

Entendeu? Não? Pois é… a pessoa que leu o cartaz pela primeira vez, pouco conhecia a Faculdade. Ela pensou: “o que tem a ver a porta aberta, com o fato de o salão nobre estar em uso?”. “E que salão nobre é esse?”.

O leitor só entendeu o cartaz quando descobriu, sozinho, que a porta fazia um ruído horrível se aberta. Também descobriu que havia um salão nobre sendo usado, bem ao lado do banheiro.

E qual foi o erro do autor? Escrever considerando somente o que ele sabia sobre a porta (que estava estragada e fazia uma barulhão ao abri-la).  Podemos ter, portanto, um texto sem erros gramaticais, porém mal escrito.

Agora pense você: como o autor do texto poderia ter escrito? Envie sua sugestão.

Os aspectos envolvidos na escrita de um bom texto

Apenas a correção gramatical e/ou ortográfica não leva o escrevente a produzir um bom texto. A escrita de bons textos envolve também a seleção das informações e sua organização, a escolha das palavras (adequação à situação), argumentação, coesão e coerência – que envolvem, entre outros conhecimentos, o uso de certos elementos lingüísticos que estão diretamente ligados à clareza e à percepção da diferença entre oralidade e escrita, ou seja, fazer-se entender através de um texto escrito, interagir com um interlocutor, quando esse não estiver face-a-face. Além desses, conforme já vimos no item “para você, o que é escrever bem?”, é necessário considerar para quem e como se escreve. Depois iremos detalhar esses itens um pouco mais e com exemplos reais.

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Falar para escrever
6 outubro 2017
Daniela: Sua explicação foi simples e objetiva. Me ajudou muito. Obrigada...
josiane: Bom dia! Gostaria de conhecer melhor qual é a sua forma de trabalho. Quero me prepara...
Carla Queiroz Pereira: Que bom, Carolina! Aproveite o blog! Beijo grande....
Carolina: AMEI a sua explicação, professora! Farei esse tema para a nossa próxima redação! :) S...
michele: Olá Carla, Li seu artigo sobre as discursivas e concordo com o que você disse, princ...
Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br