Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

Oficina sobre escrita – parte do material utilizado

Os slides aqui apresentados foram disponibilizados durante uma oficina que ministrei no mês de fevereiro deste ano.
Nela os participantes foram instigados a pensar na escrita a partir do sentido do que escrevem, considerando que um texto não é um amontoado de frases dispostas umas após outras. Em uma troca constante entre participantes e professor, a oficina não teve como propósito dizer “isso é certo” ou “isso é errado”, mas sim, identificar as dificuldades daqueles e intervir sobre elas. Nessa intervenção, importou que os participantes refizessem suas hipóteses de escrita, elegendo a melhor forma para dizer/escrever algo. Puderam, assim, perceber que a escrita de bons textos não se restringe aos aspectos gramaticais e/ou ortográficos. obs: os slides representam apenas uma parte do material entregue.

Uma vida inteira convivendo com um diagnóstico equivocado

Sempre achei que eu tinha um problema (uma dislexia ou uma dificuldade para aprender), mas depois que vi os textos de BR (ver Slides postados com o título “A Escrita e seus diagnósticos…”), percebi que escrevia, quando criança, da mesma maneira que ela; eu só precisava de alguém para me mostrar o que acontecia… alguém para me dar uma ajudinha“. (VV, profissional da área de Direito rotulada, quando criança, equivocadamente, como tendo dificuldades para escrever, o que resultou em aversão à escrita e traumas que perduram até os dias de hoje).

Para pensarmos: quem, de fato, trabalhou com VV no sentido de fazê-la refletir sobre seus textos? Quem trabalhou os textos com o objetivo de que VV mudasse sua relação com a escrita e descobrisse o prazer em escrever?

Escrever: por que muitos não aprenderam? – Parte II

Quem não tem a prática constante de leitura/escrita significativa de textos, dentro e fora da escola, e comete certos “erros” na hora de escrever, acaba sendo rotulado, equivocadamente, de disléxico por professores, fonoaudiólogos, psicólogos etc., como já vi ocorrer com N crianças, adolescentes e até jovens universitários. Eles não tinham qualquer “doença”; somente passaram por um processo de ensino da leitura e escrita em que não lhes foi dado um espaço para o errar e o reconstruir de maneira inteligente, para o pensar e o refletir.

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Só para não acharem que é um exagero tudo isso que estou falando, vou contar um caso (se quiserem posso contar outros): recentemente uma aluna do curso de Letras de uma universidade particular me disse que a professora propôs a seguinte redação em sala de aula: “escrevam um texto com o provérbio ‘o mesmo risco que corre a minhoca, corre também a enxada’”. Então lhe perguntei: “qual foi sua sensação ao tentar escrever?” Ela me disse: “Eu simplesmente não tinha nada pra dizer… como a maioria dos alunos, eu nem conhecia aquele provérbio… aí tentei achar um sentido, mas não gostei do meu texto”. Percebendo que a aluna não entendeu o porquê da sensação que lhe gerava culpa, comecei a explicá-la sobre o que já disse aqui…dos requisitos para se produzir um texto etc.

A dislexia não é dislexia – Parte II

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita, Dislexia

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Texto escrito por BR, uma garotinha de 6 anos que cursava o antigo “pré”. A professora disse que BR não poderia ir para a 1ª série porque não conhecia as letras. 

Não adianta só dizer “isso é certo”, “isso é errado” e atribuir uma doença ao que foge do esperado; escrever é uma atividade complexa e que deve ser analisada tendo em vista tal complexidade. É claro, há crianças e adultos que apresentam uma escrita não compatível com a idade e o número de anos que passaram na escola, mas isso se deve a outras razões e não pode ser visto como um distúrbio ou patologia (veja Escrever: por que muitos não aprenderam?).

Ao invés de diagnosticar como disléxico, deve-se entender o funcionamento da escrita, saber interpretar os “erros” e intervir sobre eles; uma intervenção que vai muito além de dizer ao escrevente “escreva assim” ou “não escreva assim”, isto é, que o leve a refletir/pensar sobre a própria escrita, levantar hipóteses sobre como se escreve, seja uma palavra ou uma frase em relação a outra… o texto como um todo.

A dislexia não é dislexia – Parte I

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita, Dislexia

As escolhas feitas pelo aprendiz da escrita – muitas vezes “erradas” - têm uma via explicativa que se relaciona com as possibilidades do sistema de escrita; além disso, tais escolhas demonstram que o escrevente está aprendendo e refletindo sobre o objeto (a escrita). A escrita da palavra “fugio”, por exemplo, é muito comum quando o aluno já conhece a forma ortográfica de determinadas palavras e sabe que a pronúncia destas é diferente; como muitas palavras que terminam em o são pronunciadas com u (Paulo, limpo, pano, menino, etc.), o aprendiz escreve todas as palavras com o som de u, no final, com a letra o. Por essa razão, os erros que normalmente são chamados de dislexia, quando melhor analisados, não são.

“Dislexia: um bem necessário”

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita, Dislexia

Um bem necessário sim, como diria a minha querida teacher “Maza”, orientadora do mestrado. Certa vez, uma conhecida revista de circulação nacional publicou uma matéria sobre o tema “dislexia”, definida como um “distúrbio ou transtorno de aprendizagem na área da leitura, escrita e soletração” conforme Associação Brasileira de Dislexia. Segundo a fonoaudióloga (também psicopedagoga) consultada pela revista, uma pessoa disléxica pode escrever frases do tipo “O cachoco fugio. A poua voi porcurar, mas não encontorl”, ao invés de “O cachorro fugiu. A dona foi procurar, mas não encontrou”.

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Mas o que se pode dizer sobre tal escrita? Como refletir sobre ela? Tais erros já foram analisados, no âmbito da Lingüística, como típicos do processo de aquisição da escrita e, portanto, não são interpretados como um distúrbio, problema ou doença. Por essa razão, a chamada dislexia é um “bem necessário”.

Leia mais: revista-maringa-ensina-secretaria-municipal-de-educacao-de-maringa.htm

Escrever: por que muitos não aprenderam? – Parte I

Para responder a essa pergunta temos de tentar voltar ao passado e lembrar de como a escrita nos era proposta… haaaa, acabo de lembrar uma situação: os professores davam uma figura qualquer, solicitavam colá-la no caderno e escrever sobre ela. Também davam um tema sobre o qual deveríamos escrever algo. E que mal há nisso, você pode questionar? O problema é que nesse tipo de proposta elimina-se um requisito básico para a escrita de um texto, isto é, ter uma razão para escrever, uma motivação real (que faça sentido para quem escreve). E não pára por aí.

É necessário que haja informações, fatos, comentários etc. a partir dos quais o texto possa ser escrito. Propostas desse tipo são práticas passadas? O que mudou? Talvez as figuras mudaram. Ainda hoje em nossas escolas há muita atividade de cópia, ditado e análise sintática, mas pouca prática de reflexão sobre a construção dos textos e seus sentidos; pouca prática de escrita significativa de textos, uma realidade que se arrasta ao longo da vida escolar e provoca conseqüências desastrosas.

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17 abril 2017
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Carolina: AMEI a sua explicação, professora! Farei esse tema para a nossa próxima redação! :) S...
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Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br