Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

Que tal treinar a escrita?

por Carla Queiroz Pereira em Redação, produção de textos

1. O que você acha da escrita do texto a seguir?

No próximo dia 22 de março, comemora-se o dia mundial da água; nessa data 22 de março vamos promover um movimento contra o uso indevido desse bem natural. Conheço um ativista. As palavras desse ativista convencem a todos. Ele nasceu em uma região. Nessa região havia escassez de água. Por isso, hoje ele luta pelo adequado uso da água. A água é um bem precioso. Vamos convidar esse ambientalista. Devemos muito a esse ambientalista.

Um texto como esse é resultado da ausência de pronomes relativos (que, cujo, a quem etc), imprescindíveis nos textos. Reescreva-o de maneira que a inserção dos conectores dê um outro aspecto ao texto.

Daqui uns dias postarei a resposta!!!

Redação da Abin elimina candidatos com notas altas nas provas objetivas

Passou nas objetivas, mas foi eliminado na redação

Acabei de ver as pontuações das provas objetivas e da dissertação do pessoal que fez a prova da Abin. Olha… teve gente com pontuação de 107,00 nas provas objetivas (a prova tinha 150 itens), ou seja, uma boa pontuação considerando as pontuações dos demais aprovados, bem como o fato de ser uma prova CESPE. Mas esse mesmo candidato que fez 107,00 pontos nas objetivas, fez 4,10 na prova dissertativa. Conclusão: está fora do concurso, afinal, a nota mínima exigida era 6,00. Esse é só um exemplo, pessoal. No site do CESPE podemos ver vários candidatos em situação semelhante.

Observo que muitos candidatos a concursos públicos sabem que a escrita de um bom texto não se restringe a determinados aspectos, como acentuação, pontuação, escolhas lexicais, gramática, ortografia, concordância e regência. Por isso, já aprenderam sobre a estrutura de um texto dissertativo, as informações que devem conter cada parte e, ainda, os conceitos de coesão, coerência, argumentação etc., tão falados em cursos preparatórios.

É preciso saber aplicar

É necessário que tais conceitos sejam vistos e discutidos, na prática. Não adianta só saber, por exemplo, que o elemento coesivo “se” expressa uma relação de condicionalidade. É preciso, no interior do texto, ver quais as relações de sentido foram estabelecidas pelo seu uso. Também não adianta saber o que é ambigüidade; tem que saber identificá-la em um texto real e saber desfazê-la. É por isso, também, que a escrita de um bom texto está intimamente associada à leitura. Na verdade, o processo de produção de textos envolve muitos aspectos que não trataremos agora; e o aperfeiçoamento dessa produção exige, inclusive, um leitor-interlocutor dos textos produzidos. Em muitos casos, esse leitor – profissional atuante na área – intervém no momento em que o texto está sendo produzido pelo seu autor.

Poderíamos citar muitos outros exemplos daquilo que não adianta só saber em termos de conceito, mas esse post ficaria enorme.

Sentido e revisão do texto: teste suas habilidades

Já pensou se você, ao enviar um importante e-mail para seu chefe, escreve, em alguma parte do texto, ”fezes” em vez de “vezes”? Pois é… esse caso aconteceu mesmo! A pessoa que escreveu foi a mesma que relatou o fato. A despeito do fator que motivou o “erro” (sobre isso podemos falar depois), a questão é: será que o texto foi lido e relido após ser escrito ? Essa foi a pergunta feita por mim. A resposta? ”NÃO, Carla. Eu queria logo me livrar daquele texto… Aí, depois que já havia enviado vi a besteira que fiz. Estou morrendo de vergonha“.  

Reler o texto antes de enviá-lo a alguém ou publicá-lo em algum lugar requer o exercício da paciência, disciplina e dedicação de um tempinho a mais, algo difícil nos dias de hoje. Por isso, não raras vezes observamos alguns probleminhas de sentido, por exemplo, nos textos que lemos. Veja o que foi publicado no Jornal Folha de São Paulo, servindo como questão de prova da Unicamp/2003:

O Partido X dedica-se a essa atividade mais do que nunca. Ocorre que ainda está longe do desejado, seja por falta de vontade, de vocação ou de incapacidade do partido. Entre outras razões, é por esse motivo que o dólar sobe.

A pergunta foi a seguinte: o final da seqüência “seja por falta de vontade, de vocação ou de incapacidade…” apresenta um problema de coerência, que pode ser eliminado de duas maneiras. Quais são essas duas maneiras?

E você, já sabe a resposta? Envie seu comentário a respeito!  

Elementos coesivos não servem só para ligar!

Muitas vezes os alunos que estão se preparando para concursos ou mesmo aqueles da área de Letras vêem os elementos coesivos de um texto apenas como palavrinhas que ligam uma frase a outra; até decoram o tipo de relação que um determinado elemento estabelece entre as partes de um texto. Decoram, por exemplo, que o MAS estabelece uma relação de oposição, o SE, de condição etc. Isso é pouco… muito pouco. Precisamos entender não somente o tipo de relação, mas, também, as implicações para o sentido.  

pensar.jpg

Vejam só essa questão que caiu em uma prova elaborada pela Unicamp:

Dois adesivos foram colocados no vidro traseiro de um carro:

em cima: DEUS É FIEL

e bem embaixo: PORQUE PARA DEUS NADA É IMPOSSÍVEL

É possível ler os dois adesivos em seqüência, constituindo um único período. Neste caso,

a) o que se estaria afirmando sobre a fidelidade?

b) o que o dono do carro poderia estar querendo afirmar sobre si mesmo?

Agora que você já refletiru sobre o sentido e tentou responder, veja a resposta esperada pela banca:

a) Estar-se-ia afirmando que a fidelidade é uma coisa impossível de se seguir.

b) O dono está querendo afirmar que ele é infiel visto que somente Deus é fiel pois fidelidadepara o dono do carro é uma coisa impossível.

 

O elemento SE e a relação semântica de condicionalidade

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Comentarei aqui uma questão da última prova da ESAF para o cargo de Auditor Fiscal da Receita Federal. Escolhi tal questão para publicar no blog depois que dei uma aula particular a um aluno que está se preparando para concursos da área fiscal. Dar aula de Interpretação de Textos é legal por várias razões. Na referida aula pude compreender que faltava ao aluno uma reflexão sobre o uso, no texto, do elemento SE… faltava entender o que era a chamada “relação de condicionalidade”.

A questão é a seguinte:

questao-esaf-coesao-pelo-se.JPG

questao-esaf-coesao-alternativas.JPG

O enunciado da questão pede que o candidato identifique a relação de condicionalidade argumentada no texto. Ele deverá, portanto, saber que o elemento SE, presente nas alternativas, estabelece tal relação. Também deverá observar qual a relação de sentido estabelecida pelo elemento SE,  nas alternativas; observar se a relação está de acordo com a argumentação construída no texto.

Antes de fazermos alguns comentários sobre o texto, vejamos um simples exemplo em que observamos o funcionamento do SE estabelecendo relação de condição:
VOCÊ PASSARÁ NO CONCURSO SE ESTUDAR MUITO.

Na frase acima, estudar muito é uma condição para ser aprovado no concurso; o SE, portanto, estabelece uma relação de condição.Voltemos à questão da prova: O texto coloca a necessidade de se criar critérios objetivos para a seleção de projetos como condição para que sejam evitados erros graves na condução de PPP. Erros – que podem custar caro para serem revertidos – só poderão ser evitados se forem criados critérios objetivos para a seleção de projetos. Essa informação não está explícita no texto; é construída após completa leitura. (É um claro exemplo de que o sentido do texto se constrói não a partir de suas partes isoladas).Tal construção se dá a partir das seguintes informações: de que “é urgentemente necessário criar critérios objetivos para a seleção de projetos” (L. 1); de que a autoridade pública deve ser obrigada a comprovar o atendimento a critérios de interesse público; de que ações do governo podem gerar graves erros na condução de  programas de parcerias público-privadas (L. 11, 12 e 13).

 

Resposta correta: D

Questão 9 – AFRF/2005 (prova 1)

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

questao-9-afrf-2005.JPG 

questao-9-cont-afrf-2005.JPG

Na paráfrase há uma transcrição do texto original, utilizando-se novas palavras.  
A coerência – um tema bastante conhecido na Lingüística e muito cobrado em provas de concursos – diz respeito ao modo como os elementos subjacentes à superfície textual vêm a constituir, na mente dos interlocutores, uma configuração veiculadora de sentidos (Koch, 1997). Falando de outra maneira, a coerência pode ser entendida como o princípio de harmonia entre as idéias, opiniões; princípio de não contradição. Alguns comentários: Em todas as alternativas observamos o uso de diferentes elementos de coesão – “contudo” (A), “mas” (B), “todavia” (C), “porém” (D) e “no entanto” (E). Todos eles carregam o mesmo sentido e estão de acordo com o texto do enunciado (“Mas os problemas do mundo dos nossos netos…”). Ao analisarmos a alternativa A, observamos que o primeiro e segundo sinais de pontuação (.) foram substituídos, respectivamente, por “porque” e “dado que”. Sendo assim, o aluno deveria:
1. entender a relação de sentido estabelecida entre as frases do texto do enunciado;
2. entender a relação de sentido ocasionada pela substituição dos pontos por “porque” e “dado que”;
3. verificar se tal substituição tem sentido coerente e compatível com o sentido do texto do enunciado.
É o que iremos fazer agora!  
Lendo o texto do enunciado… Mesmo não sabendo, pelo texto, quais são os problemas do mundo do autor, sabemos que aqueles que farão parte do mundo de seus netos e bisnetos (1ª frase) serão diferentes . E a partir da 2ª frase, o autor explica a razão de tais diferenças. Diferentemente do autor, seus netos e bisnetos “viverão no meio de um crescimento perigosamente desequilibrado”. Sendo assim, a frase “Eles viverão no meio de um crescimento perigosamente desequilibrado (…)” serve para explicar a frase anterior – “Mas os problemas do mundo dos nossos netos e bisnetos serão diferentes”. Analisando a alternativa A:
Considerando a explicação supramencionada, está correto o uso do “porque” em “os problemas do mundo dos nossos netos e bisnetos serão diferentes porque eles viverão em meio a um crescimento perigosamente desequilibrado entre os povos (…)”. Houve, neste caso, a substituição do primeiro ponto (.) por “porque”, um elemento coesivo que estabeleceu uma relação de sentido coerente com o exposto no texto do enunciado.  Já o segundo ponto (.) do texto do enunciado foi substituído por “dado que”, uma expressão que quer dizer “uma vez que”, “porque”, “pois”.  O uso de “dado que” na frase “dado que cerca de dois bilhões de habitantes terão de ser alimentados e educados em nações pobres e sem recursos” serve para explicar o crescimento considerado perigosamente desequilibrado. Note no texto original, que após o segundo ponto (.) o autor escreve: “sim, porque dois terços (…)”. O “sim” retoma a frase anterior. É como se ele dissesse: “sim, eles viverão no meio de um crescimento perigosamente desequilibrado entre os povos porque dois terços dos moradores do planeta (…) terão de ser alimentados e educados em nações pobres e sem recursos”. Gabarito: A

Coesão textual: isso cai demais em concurso!

linhas coesão

O que seria das calças e blusas que usamos se não fossem os fios que costuram suas partes? Se cortados, o que sobra são simples pedaços de pano. Da mesma forma, elementos como portanto, então, já que, com efeito, porque, ora, mas, assim, daí, dessa formamas etc., além de ligar as partes de um texto, são de suma importância na construção do sentido e estabelecem uma certa relação semântica.

Por exemplo, na frase “Ele é bonito, mas é chato”, o mas contrapõe argumentos orientados para conclusões contrárias.

O mas, nessa frase, não pode ser substituído por outro elemento qualquer (ele é bonito, portanto é chato). Neste caso, mudamos completamente a relação de sentido… ser chato passa a ser uma conclusão de ser bonito. O uso inadequado dos elementos orienta o sentido do texto para uma outra direção ou cria paradoxos semânticos.

 

O texto não é um amontoado de palavras

Puxa, depois que eu aprendi que certas palavras [aquelas que dão coesão ao texto] direcionam o sentido, meu texto virou outro. E agora também entendo quando devo usar uma palavra e não outra e que não adianta ficar decorando significado” (GO, pré-universitário).

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Falar para escrever
6 outubro 2017
Daniela: Sua explicação foi simples e objetiva. Me ajudou muito. Obrigada...
josiane: Bom dia! Gostaria de conhecer melhor qual é a sua forma de trabalho. Quero me prepara...
Carla Queiroz Pereira: Que bom, Carolina! Aproveite o blog! Beijo grande....
Carolina: AMEI a sua explicação, professora! Farei esse tema para a nossa próxima redação! :) S...
michele: Olá Carla, Li seu artigo sobre as discursivas e concordo com o que você disse, princ...
Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br