Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

Oficina sobre escrita – parte do material utilizado

Os slides aqui apresentados foram disponibilizados durante uma oficina que ministrei no mês de fevereiro deste ano.
Nela os participantes foram instigados a pensar na escrita a partir do sentido do que escrevem, considerando que um texto não é um amontoado de frases dispostas umas após outras. Em uma troca constante entre participantes e professor, a oficina não teve como propósito dizer “isso é certo” ou “isso é errado”, mas sim, identificar as dificuldades daqueles e intervir sobre elas. Nessa intervenção, importou que os participantes refizessem suas hipóteses de escrita, elegendo a melhor forma para dizer/escrever algo. Puderam, assim, perceber que a escrita de bons textos não se restringe aos aspectos gramaticais e/ou ortográficos. obs: os slides representam apenas uma parte do material entregue.

O valor da escrita versus dificuldades de quem escreve – Parte II

Às vezes pensamos que ter dificuldades para escrever é algo que ocorre com poucas pessoas. Isso não é verdade. Minha vivência com profissionais de diversas áreas mostra que não! E as dificuldades dos escreventes não são somente aquelas citadas na parte I deste post. Veja mais algumas:

 dificuldades

  • Escrevem como se estivem conversando. É claro, há casos em que escrever dessa forma é completamente permitido. Tudo depende de o que escrevemos, para quem e com que finalidade. Se você escreve um e-mail para seu amigo e colega de trabalho contando como foi o final de semana, você escreverá de uma forma; se escreve um relatório para seu gerente relatando a visita a um cliente, a forma é outra. É uma questão de adequação.
  • Constroem um texto que mais parece uma junção de partes de outros textos. É o famoso ctrl C, ctrl V. Já que não conseguem escrever, copiam um pedacinho aqui… outro ali e pronto;
  • Usam pontuações inadequadas. Isso também é sério. Uma pontuação inadequada pode, entre outras coisas, dar um sentido diferente da intenção original.

 Essas são algumas dificuldades que repercutem diretamente no alcance dos objetivos dos profissionais, bem como na imagem que desejam construir no leitor de seus textos.

O valor da escrita versus dificuldades de quem escreve – Parte I

escrita

 

Sem dúvida alguma sabemos o valor da linguagem escrita nas relações pessoais e profissionais. Em todas as áreas do conhecimento, o uso dos textos para se estabelecer negociações, convencer o interlocutor a respeito de algo ou simplesmente para comunicar um fato, é uma prática constante. Apesar disso, não são raros os casos em que o escrevente encontra dificuldades para produzir bons textos. Por exemplo:

  • Sabem e falam o que querem escrever, mas não conseguem escrever o que sabem dizer; 
  • Utilizam períodos loooooooongos, comprometendo, assim, o sentido daquilo que escrevem. É o famoso “uma coisa puxa a outra… que puxa a outra… a outra”;
  • Não dão coesão ao texto. A impressão, quando lemos, é que uma parte não se relaciona com a outra;
  • Não expõem com clareza o conteúdo, de maneira a considerar seu leitor;
  • Escolhem palavras inadequadas à situação de uso…

 Essas são só algumas dificuldades. Existem muitas outras!

Escrever: por que muitos não aprenderam? – Parte II

Quem não tem a prática constante de leitura/escrita significativa de textos, dentro e fora da escola, e comete certos “erros” na hora de escrever, acaba sendo rotulado, equivocadamente, de disléxico por professores, fonoaudiólogos, psicólogos etc., como já vi ocorrer com N crianças, adolescentes e até jovens universitários. Eles não tinham qualquer “doença”; somente passaram por um processo de ensino da leitura e escrita em que não lhes foi dado um espaço para o errar e o reconstruir de maneira inteligente, para o pensar e o refletir.

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Só para não acharem que é um exagero tudo isso que estou falando, vou contar um caso (se quiserem posso contar outros): recentemente uma aluna do curso de Letras de uma universidade particular me disse que a professora propôs a seguinte redação em sala de aula: “escrevam um texto com o provérbio ‘o mesmo risco que corre a minhoca, corre também a enxada’”. Então lhe perguntei: “qual foi sua sensação ao tentar escrever?” Ela me disse: “Eu simplesmente não tinha nada pra dizer… como a maioria dos alunos, eu nem conhecia aquele provérbio… aí tentei achar um sentido, mas não gostei do meu texto”. Percebendo que a aluna não entendeu o porquê da sensação que lhe gerava culpa, comecei a explicá-la sobre o que já disse aqui…dos requisitos para se produzir um texto etc.

A dislexia não é dislexia – Parte II

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita, Dislexia

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Texto escrito por BR, uma garotinha de 6 anos que cursava o antigo “pré”. A professora disse que BR não poderia ir para a 1ª série porque não conhecia as letras. 

Não adianta só dizer “isso é certo”, “isso é errado” e atribuir uma doença ao que foge do esperado; escrever é uma atividade complexa e que deve ser analisada tendo em vista tal complexidade. É claro, há crianças e adultos que apresentam uma escrita não compatível com a idade e o número de anos que passaram na escola, mas isso se deve a outras razões e não pode ser visto como um distúrbio ou patologia (veja Escrever: por que muitos não aprenderam?).

Ao invés de diagnosticar como disléxico, deve-se entender o funcionamento da escrita, saber interpretar os “erros” e intervir sobre eles; uma intervenção que vai muito além de dizer ao escrevente “escreva assim” ou “não escreva assim”, isto é, que o leve a refletir/pensar sobre a própria escrita, levantar hipóteses sobre como se escreve, seja uma palavra ou uma frase em relação a outra… o texto como um todo.

Para você, o que é escrever bem?

Alguns diriam que escrever bem é dominar bem as regras gramaticais. Outros diriam que é escrever de forma objetiva, não sendo prolixo. Será só isso mesmo?

Para respondermos tal questão, vejamos o cartaz seguinte, afixado na porta de acesso aos banheiros de uma Faculdade:

cartaz unicamp

Entendeu? Não? Pois é… a pessoa que leu o cartaz pela primeira vez, pouco conhecia a Faculdade. Ela pensou: “o que tem a ver a porta aberta, com o fato de o salão nobre estar em uso?”. “E que salão nobre é esse?”.

O leitor só entendeu o cartaz quando descobriu, sozinho, que a porta fazia um ruído horrível se aberta. Também descobriu que havia um salão nobre sendo usado, bem ao lado do banheiro.

E qual foi o erro do autor? Escrever considerando somente o que ele sabia sobre a porta (que estava estragada e fazia uma barulhão ao abri-la).  Podemos ter, portanto, um texto sem erros gramaticais, porém mal escrito.

Agora pense você: como o autor do texto poderia ter escrito? Envie sua sugestão.

Os aspectos envolvidos na escrita de um bom texto

Apenas a correção gramatical e/ou ortográfica não leva o escrevente a produzir um bom texto. A escrita de bons textos envolve também a seleção das informações e sua organização, a escolha das palavras (adequação à situação), argumentação, coesão e coerência – que envolvem, entre outros conhecimentos, o uso de certos elementos lingüísticos que estão diretamente ligados à clareza e à percepção da diferença entre oralidade e escrita, ou seja, fazer-se entender através de um texto escrito, interagir com um interlocutor, quando esse não estiver face-a-face. Além desses, conforme já vimos no item “para você, o que é escrever bem?”, é necessário considerar para quem e como se escreve. Depois iremos detalhar esses itens um pouco mais e com exemplos reais.

Escrever: por que muitos não aprenderam? – Parte I

Para responder a essa pergunta temos de tentar voltar ao passado e lembrar de como a escrita nos era proposta… haaaa, acabo de lembrar uma situação: os professores davam uma figura qualquer, solicitavam colá-la no caderno e escrever sobre ela. Também davam um tema sobre o qual deveríamos escrever algo. E que mal há nisso, você pode questionar? O problema é que nesse tipo de proposta elimina-se um requisito básico para a escrita de um texto, isto é, ter uma razão para escrever, uma motivação real (que faça sentido para quem escreve). E não pára por aí.

É necessário que haja informações, fatos, comentários etc. a partir dos quais o texto possa ser escrito. Propostas desse tipo são práticas passadas? O que mudou? Talvez as figuras mudaram. Ainda hoje em nossas escolas há muita atividade de cópia, ditado e análise sintática, mas pouca prática de reflexão sobre a construção dos textos e seus sentidos; pouca prática de escrita significativa de textos, uma realidade que se arrasta ao longo da vida escolar e provoca conseqüências desastrosas.

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Falar para escrever
6 outubro 2017
Daniela: Sua explicação foi simples e objetiva. Me ajudou muito. Obrigada...
josiane: Bom dia! Gostaria de conhecer melhor qual é a sua forma de trabalho. Quero me prepara...
Carla Queiroz Pereira: Que bom, Carolina! Aproveite o blog! Beijo grande....
Carolina: AMEI a sua explicação, professora! Farei esse tema para a nossa próxima redação! :) S...
michele: Olá Carla, Li seu artigo sobre as discursivas e concordo com o que você disse, princ...
Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br