Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

Arquivo da categoria Textos de professores da área de Lingüística

Mais um texto de Sírio Possenti!!!

Língua ou gramática, eis a questão

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Uma passagem de uma coluna do professor Pasquale (Folha de S.Paulo, 08/01/2009, p. C2) fornece o pretexto para explicitar aspectos de uma questão que quase sempre são inadequadamente misturados. Começa citando um poema de Bandeira, que foi musicado por Dorival Caymmi e do qual se tratou em prova da Fuvest: “O rei atirou / sua filha ao mar / e disse às sereias: / – Ide-a lá buscar”.

A propósito das questões formuladas (uma perguntava pelo efeito expressivo de “ide” e outra mandava substituir a segunda pessoa do plural pela terceira), mas depois da segunda, que talvez até seja mais fácil que a primeira, faz o seguinte comentário: “Agora o bicho pega de vez, ao menos para quem teve o azar de estudar com “professores” que julgam que nas aulas de português só se deve falar da língua viva, da língua de hoje”.

Há vários aspectos nesta passagem que merecem comentários. As aspas em “professores” (que poderiam estar também em “professor” Pasquale, querendo), o comentário “agora o bicho pega de vez”, curiosamente depois da segunda questão, que supõe conhecimento de língua de hoje, a viva, mas, especialmente, a “mistura” implícita entre aulas de português e aulas de gramática.

Como disse, as questões da prova mandam discorrer sobre o efeito expressivo da forma “ide” e, depois, substituir esta forma pela terceira do plural – “vão”. O professor Pasquale supõe – ou permite que se suponha – que as respostas podem ser dadas com base no estudo das formas gramaticais da língua mais “antiga” e que alunos que só tivessem estudado a língua viva se sairiam mal na prova.

Ora, nada garante que quem estudou as formas antigas – a conjugação verbal como está nas gramáticas – se dê conta do efeito expressivo de uma forma mais ou menos antiga (“ide”). Muitos estudantes que têm o azar de ter “professores” que não falam do português de hoje ficam mudos diante de perguntas como essa, porque esses professores dificilmente falam de efeitos expressivos…

Mas a questão não é bem essa. A principal é a tese implícita da coluna: “estudar” formas antigas permite compreender seus efeitos. Ora, isso não é obvio. O que importa é distinguir duas coisas: estudar gramática do português e estudar português. Em tese, é perfeitamente possível estudar gramática (fazer gramática, aprender como se faz gramática) sem estudar português, no sentido de saber explicitar a relação entre o emprego de uma forma e seus efeitos de sentido.

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“Virtudes no erro”

Esse post é para quem se interessa por temas como “dislexia”, “erros de escrita”, “gramática”, “ortografia”, “diagnósticos de aprendizagem” etc. É muuuuuiiiiito bom!
Os erros nunca mais serão os mesmos para você!

Virtudes no erro – Sírio Possenti

(texto publicado no site http://terramagazine.terra.com.br)

Bisbilhotando comentários de leitores no blog do Nassif, encontrei a grafia “medilcridade” para “mediocridade” e achei que era um bom tema. A conexão imediata foi com o Alvará redigido por Gaspar de Seixas, em 1571, que o fez por ordem de Jorge da Costa (Iorge da Costa, está lá), liberando a edição de Os Lusíadas, muito instrutivo e até divertido para quem queira fazer observações históricas sobre escrita. A conexão foi imediata porque lembrei, em especial, as duas grafias imprimir e emprimir, sem contar, por exemplo, aja por haja, diãte por diante, declarão por declaram etc., “erros” que qualquer escolar pode cometer – e comete – hoje.

O cidadão comum escolarizado – mas, especialmente, um desses plantonistas da língua, que, na verdade, mal a conhecem, não por serem obtusos, mas por usarem instrumentos inadequados de análise – imaginará que esse comentador de blogs deveria estudar um pouco, para deixar de fazer mal à língua pátria. Mas o leitor mais curioso veria aí um indício, um fato que revela alguma coisa interessante sobre nossa língua. Afinal, o internauta certamente quis escrever direito, fazer boa figura, e, se errou, o erro deve ter uma explicação.

Vamos a ela: sabe-se que as vogais /e/ e /o/ sofrem um processo de alçamento em contextos átonos, tanto finais quanto pré-tônicos – por isso muita gente diz mininu, curuja e patu, porque as vogais em negrito são átonas, mas não diz cuco (e sim coco) nem cocú (e sim cocô), nem prito e voci (e sim preto e você) etc., porque agora as vogais destacadas são tônicas. Para resumir, os sons representados pelas letras (no caso, pelos fonemas) /e/ e /o/ “transformam-se” em i e u em contextos átonos, na fala da maioria dos brasileiros. Seguindo essa regra, nosso leitor provavelmente diria mediucridade, com u, embora a grafia legal seja mediocridade, com o.
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“O humor e a língua”

Há um texto que recomendo a todos os amantes da linguagem. Coloquei aqui dois trechinhos dele + o arquivo completo.
“As piadas fornecem simultaneamente um dos melhores retratos dos valores e problemas de uma sociedade, por um lado, e uma coleção de fatos e dados impressionantes para quem quer saber o que é e como funciona uma língua, por outro”.
 
(…)
 
“Uma língua não é como nos ensinaram: clara e relacionada a um fato ou situação que ela representa como um espelho. Praticamente cada segmento da língua deriva para outro sentido, presta-se a outra interpretação, por razões variadas” (Sírio Possenti).
 
Não sendo a língua assim, clara e transparente, podemos criar, jogar com as palavras, dizer de uma forma diferente um mesmo fato, dizer sem dizer.
Arquivo completo: o-humor-e-a-lingua-texto

Os Pronomes Pessoais e as Variações em Uso

Outros profissionais da área de Letras e Lingüística também estão escrevendo neste blog. O texto a seguir, por exemplo, escrito por Mara Lúcia Fabricio de Andrade – mestre em Lingüística e Língua Portuguesa pela Unesp e doutora em Neurolingüística pela Unicamp – mostra o desuso das formas “vós” e “tu” (ao menos na região de SP) em relação ao uso de formas como “nós” e “a gente”.
Só para terem uma idéia, vejam o
levantamento quantitativo das formas pronominais tu/você, nós/a gente, vós/vocês

É muito interessante. Não deixem de ler o artigo “Os Pronomes Pessoais e as Variações em Uso”.

texto-da-mara-para-o-blog-1812

Para quem quiser falar com autora, o e-maill é: mlfandrade@hotmail.com

Regras gramaticais & Aprendizagem da Escrita – Parte I

Normalmente as pessoas pensam que a produção de bons textos está diretamente associada ao conhecimento de regras gramaticais… de análise sintática…

Gostaria, portanto, de expor um trecho do livro A Norma Oculta: língua & poder na sociedade brasileira, do professor de Lingüística da Universidade de Brasília (UnB), Marcos Bagno:

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Estruturas textuais características da língua escrita mais monitorada só podem ser apreendidas e aprendidas se a pessoa tiver contato com elas, e este contato se faz por meio da leitura e da escrita. Por isso, não adianta entupir a cabeça das pessoas com regras, exceções, nomenclaturas e definições. Não é assim que alguém vai aprender a ler e a escrever. Isso não é ‘ensinar português’, é simplesmente decorar a gramática normativa, e há muito tempo os lingüistas e educadores vêm demonstrando a inutilidade dessa prática secular. Só se aprende a ler e a escrever, por mais incrível que pareça, lendo e escrevendo. A idéia de que a boa leitura e a boa produção de textos depende do conhecimento pormenorizado da gramática normativa é uma falácia que precisa ser combatida” (Bagno, 2003, p. 188). 

Falaremos bastante sobre esse importante tema!!! 

Muito legal este livro!

No livro Introdução à Semântica: brincando com a gramática, Rodolfo Ilari  mostra aos professores de ensino médio que “há muito a fazer quando se quer trabalhar sobre o sentido”. Trata-se de um livro super interessante porque através dos exemplos e das atividades propostas - criativas e descontraídas - o autor explicita os N fatores envolvidos no processo de interpretação… mostra que interpretar é uma atividade complexa e, ao mesmo tempo, muitíssimo prazerosa.   

Vale a pena ler. Está lá no site

http://www.scribd.com/doc/2367843/00088-Introducao-a-Semantica-Brincando-com-a-Gramatica

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6 outubro 2017
Daniela: Sua explicação foi simples e objetiva. Me ajudou muito. Obrigada...
josiane: Bom dia! Gostaria de conhecer melhor qual é a sua forma de trabalho. Quero me prepara...
Carla Queiroz Pereira: Que bom, Carolina! Aproveite o blog! Beijo grande....
Carolina: AMEI a sua explicação, professora! Farei esse tema para a nossa próxima redação! :) S...
michele: Olá Carla, Li seu artigo sobre as discursivas e concordo com o que você disse, princ...
Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br