Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

Arquivo da categoria Recursos: tentar ou não?

Não existem milagres em matéria de escrita

Bom dia, queridos.

Li, na semana passada, diversas dissertações de concurseiros que prestaram o TJ-PE e queriam saber, da minha parte, se caberia algum recurso a fim de conseguirem aumentar a nota e melhorarem a classificação. Sempre busco alguma brecha na correção para poder ter um caminho para a elaboração do recurso, afinal, para pedirmos o aumento da nota, um razoável motivo é necessário.

Das dissertações analisadas, leitor, apenas uma (sim, uma) realmente era passível de recursos.  Confesso que fiquei até meio assustada com o que vi e li nos textos, apesar de já trabalhar com dissertações há mais de 10 anos! Não vou detalhar os problemas linguísticos que encontrei nos textos, mas destacar as conclusões tiradas por mim:

1. MEMORIZAMOS OS ARTIGOS DA CF, DO CÓDIGO CIVIL, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL ETC., MAS DESCONHECEMOS OS PRINCÍPIOS BÁSICOS EM MATÉRIA DE TEXTO;

2. RELEMOS UMA QUESTÃO OBJETIVA INTEIRA ANTES DE MARCAR O “X”, MAS SEQUER VOLTAMOS PARA LER O QUE ESCREVEMOS NA LINHA ANTERIOR;

3. ESTAMOS ATENTOS AO QUE A BANCA PEDIU NA QUESTÃO OBJETIVA, MAS, NA REDAÇÃO, DESPREZAMOS O QUE O EXAMINADOR ESCREVEU E PREFERIMOS ESCREVER ALGO QUE “VEIO NA NOSSA CABEÇA”;

4. CONSEGUIMOS SABER A INTENÇÃO DA BANCA NUMA PROVA DE MARCAR “X” (MESMO QUANDO ELA NÃO DEIXA TUDO BEM CLARO),  MAS NÃO SABEMOS LER O ENUNCIADO DA PROVA DISSERTATIVA; NÃO  EXERCITAMOS LER GUIANDO-NOS PELAS RELAÇÕES DE SENTIDO ENTRE OS PERÍODOS;

5. ATÉ CHEGAMOS À CONCLUSÃO DE QUE ESCREVEMOS UM TEXTO MUITO RUIM, MAS PREFERIMOS FECHAR OS OLHOS PARA ISSO, ACREDITANDO QUE O EXAMINADOR TERÁ COMPAIXÃO, QUE A SORTE ESTARÁ CONOSCO OU QUE DIAS MELHORES VIRÃO;

6. INVESTIMOS TEMPO E DINHEIRO EM NOSSA PREPARAÇÃO PARA AS OBJETIVAS; PARA AS DISSERTAÇÕES SEPARAMOS O QUE SOBRA OU ECONOMIZAMOS AO MÁXIMO FAZENDO AQUELES CURSOS QUE NÃO ENSINAM (QUASE)NADA EM MATÉRIA DE RACIOCÍNIO LINGUÍSTICO;

7. SEPARAMOS UM TEMPO RAZOÁVEL PARA MARCAR O “X” E TEMOS ESPERANÇA DE QUE A DISSERTAÇÃO ESCRITA EM 30 MINUTOS TENHA UMA ÓTIMA NOTA;

8. EM SUMA,  ESTUDAMOS PARA AS PROVAS OBJETIVAS COM DILIGÊNCIA E AFINCO, PORÉM CONTAMOS COM UM MILAGRE NAS PROVAS DISSERTATIVAS.

Já vi milagres acontecerem em provas objetivas (ex: o candidato não sabia nada de raciocínio lógico; das 5 questões que chutou, ele acertou 4), mas, nestes últimos 10 anos, desconheço algum quando o assunto é a escrita de bons ou ótimos textos! Ainda não entendemos que uma boa dissertação não se constitui com a mera soma de frases soltas, declarações não explicadas ou repetições vazias.

Sabemos onde queremos chegar, mas o caminho está sendo percorrido pela metade.

É possível, sim, aumentar a nota após RECURSOS !

Saiu agora há pouco o resultado final do TRT-8ª – após a análise dos recursos pela banca CESPE – e acabo de receber a seguinte mensagem em meu whatssapp: “Carla, querida. Te liguei para agradecer pelo seu recurso. Vc é 10! Aumentou 5 pontos a minha nota na discursiva. E parece que vou subir bastante minha colocação”. Muitíssimo obrigada, querida!”  De fato, este é um animador depoimento para incluirmos uma nova categoria no blog – “recursos: tentar ou não?”

Vivo falando que a luta em um concurso público só termina com a posse, mas muitos candidatos não ouvem isso! Infelizmente, uma boa parte dos “concurseiros” tem receios ou objeções quando o assunto são recursos nas provas discursivas (geralmente técnicas, versando sobre um aspecto da matéria); consideram que a banca pode reduzir a nota (o que, na prática, sinceramente, NUNCA vi ocorrer em todos estes anos trabalhando na área) ou que o ato de recorrer em conteúdo de nada adiantará, já que se trata de avaliação do conhecimento técnico-jurídico. E por que devemos tentar os recursos? Por três razões básicas, pelo menos: a) a banca errou de fato (isso acontece e muito!); b) comparando a lei com o espelho de respostas e o texto produzido pelo candidato, notamos que nem sempre a banca é razoável na correção; c) o concurso não terminou e nossa colocação pode mudar (e muito) após o período dos recursos.

Obviamente, não escrevo um recurso quando o julgo não ser cabível, já que é impossível argumentar bem sem parâmetros para isso. Mas, quando cabe (e essa análise eu faço questão de discutir com o candidato que me procura), defendo veementemente  o ingresso! A vida e o futuro estão em jogo!

Graças a Deus, o depoimento da minha aluna Joana, de Brasília, vem para provar que o recurso foi lido e bem aceito!

Parabéns, Joana!

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Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br