Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

Arquivo da categoria Lingüística & Língua Portuguesa

Hummm… não entendi nada…

A necessidade de considerarmos o outro para quem escrevemos

Podemos entender essa conversa?

C: Você trouxe as coisas que pedi?
J: As que estavam lá em cima?
C: Não, as que deixei no quintal.
J: Ah, vou buscá-las.

(obs: as letras maiúsculas representam as iniciais dos nomes
das pessoas envolvidas na interação)

Embora esse texto oral faça pouco sentido para um estranho, os interlocutores se entendem perfeitamente, complementando as lacunas através de inferências baseadas em seu conhecimento partilhado (Koch, 2004). “As coisas” são conhecidas de ambos, C e J; “lá em cima” faz referência a algum lugar, também de conhecimento dos interlocutores, o que dispensa certas explicações por parte deles. Dessa forma, a depender de quem é o nosso interlocutor escreveremos mais ou menos, daremos mais ou menos detalhes.
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Mais um texto de Sírio Possenti!!!

Língua ou gramática, eis a questão

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Uma passagem de uma coluna do professor Pasquale (Folha de S.Paulo, 08/01/2009, p. C2) fornece o pretexto para explicitar aspectos de uma questão que quase sempre são inadequadamente misturados. Começa citando um poema de Bandeira, que foi musicado por Dorival Caymmi e do qual se tratou em prova da Fuvest: “O rei atirou / sua filha ao mar / e disse às sereias: / – Ide-a lá buscar”.

A propósito das questões formuladas (uma perguntava pelo efeito expressivo de “ide” e outra mandava substituir a segunda pessoa do plural pela terceira), mas depois da segunda, que talvez até seja mais fácil que a primeira, faz o seguinte comentário: “Agora o bicho pega de vez, ao menos para quem teve o azar de estudar com “professores” que julgam que nas aulas de português só se deve falar da língua viva, da língua de hoje”.

Há vários aspectos nesta passagem que merecem comentários. As aspas em “professores” (que poderiam estar também em “professor” Pasquale, querendo), o comentário “agora o bicho pega de vez”, curiosamente depois da segunda questão, que supõe conhecimento de língua de hoje, a viva, mas, especialmente, a “mistura” implícita entre aulas de português e aulas de gramática.

Como disse, as questões da prova mandam discorrer sobre o efeito expressivo da forma “ide” e, depois, substituir esta forma pela terceira do plural – “vão”. O professor Pasquale supõe – ou permite que se suponha – que as respostas podem ser dadas com base no estudo das formas gramaticais da língua mais “antiga” e que alunos que só tivessem estudado a língua viva se sairiam mal na prova.

Ora, nada garante que quem estudou as formas antigas – a conjugação verbal como está nas gramáticas – se dê conta do efeito expressivo de uma forma mais ou menos antiga (“ide”). Muitos estudantes que têm o azar de ter “professores” que não falam do português de hoje ficam mudos diante de perguntas como essa, porque esses professores dificilmente falam de efeitos expressivos…

Mas a questão não é bem essa. A principal é a tese implícita da coluna: “estudar” formas antigas permite compreender seus efeitos. Ora, isso não é obvio. O que importa é distinguir duas coisas: estudar gramática do português e estudar português. Em tese, é perfeitamente possível estudar gramática (fazer gramática, aprender como se faz gramática) sem estudar português, no sentido de saber explicitar a relação entre o emprego de uma forma e seus efeitos de sentido.

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“Por que escrevo?”

Estou lendo uma coletânea de depoimentos célebres de escritores nacionais e internacionais sobre a seguinte questão a eles dirigida: “por que escrevo?”.
No livro “Por que escrevo?”, organizado por José Domingos de Brito e editado pela Novera editora, você poderá ler a resposta de 121 escritores!!!

Veja só a de Monteiro Lobato:
Escrever pode ser um ato puramente imitativo, ou uma exigência orgânica. Sempre escrevi por exigência orgânica, isto é, quando qualquer coisa, em meu organismo, exigia e impunha a fixação do pensamento em palavras – para alívio interno. Nunca escrevi por sugestão externa. O livro mais interessante que poderia fazer seria a história de meus contos (…)”.

“Virtudes no erro”

Esse post é para quem se interessa por temas como “dislexia”, “erros de escrita”, “gramática”, “ortografia”, “diagnósticos de aprendizagem” etc. É muuuuuiiiiito bom!
Os erros nunca mais serão os mesmos para você!

Virtudes no erro – Sírio Possenti

(texto publicado no site http://terramagazine.terra.com.br)

Bisbilhotando comentários de leitores no blog do Nassif, encontrei a grafia “medilcridade” para “mediocridade” e achei que era um bom tema. A conexão imediata foi com o Alvará redigido por Gaspar de Seixas, em 1571, que o fez por ordem de Jorge da Costa (Iorge da Costa, está lá), liberando a edição de Os Lusíadas, muito instrutivo e até divertido para quem queira fazer observações históricas sobre escrita. A conexão foi imediata porque lembrei, em especial, as duas grafias imprimir e emprimir, sem contar, por exemplo, aja por haja, diãte por diante, declarão por declaram etc., “erros” que qualquer escolar pode cometer – e comete – hoje.

O cidadão comum escolarizado – mas, especialmente, um desses plantonistas da língua, que, na verdade, mal a conhecem, não por serem obtusos, mas por usarem instrumentos inadequados de análise – imaginará que esse comentador de blogs deveria estudar um pouco, para deixar de fazer mal à língua pátria. Mas o leitor mais curioso veria aí um indício, um fato que revela alguma coisa interessante sobre nossa língua. Afinal, o internauta certamente quis escrever direito, fazer boa figura, e, se errou, o erro deve ter uma explicação.

Vamos a ela: sabe-se que as vogais /e/ e /o/ sofrem um processo de alçamento em contextos átonos, tanto finais quanto pré-tônicos – por isso muita gente diz mininu, curuja e patu, porque as vogais em negrito são átonas, mas não diz cuco (e sim coco) nem cocú (e sim cocô), nem prito e voci (e sim preto e você) etc., porque agora as vogais destacadas são tônicas. Para resumir, os sons representados pelas letras (no caso, pelos fonemas) /e/ e /o/ “transformam-se” em i e u em contextos átonos, na fala da maioria dos brasileiros. Seguindo essa regra, nosso leitor provavelmente diria mediucridade, com u, embora a grafia legal seja mediocridade, com o.
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“O humor e a língua”

Há um texto que recomendo a todos os amantes da linguagem. Coloquei aqui dois trechinhos dele + o arquivo completo.
“As piadas fornecem simultaneamente um dos melhores retratos dos valores e problemas de uma sociedade, por um lado, e uma coleção de fatos e dados impressionantes para quem quer saber o que é e como funciona uma língua, por outro”.
 
(…)
 
“Uma língua não é como nos ensinaram: clara e relacionada a um fato ou situação que ela representa como um espelho. Praticamente cada segmento da língua deriva para outro sentido, presta-se a outra interpretação, por razões variadas” (Sírio Possenti).
 
Não sendo a língua assim, clara e transparente, podemos criar, jogar com as palavras, dizer de uma forma diferente um mesmo fato, dizer sem dizer.
Arquivo completo: o-humor-e-a-lingua-texto

Você & a escrita: uma nova relação

Tenho pensado bastante na função social da escrita, no que fazemos através dela, no que a escola nos fez pensar sobre ela e na nova relação que podemos estabelecer com ela. Gostaria de compartilhar isso, tomando alguns trechos do livro “Lutar com Palavras: coesão e coerência”, de Irandé Antunes.

“Usar a linguagem é um ato social, é um ato histórico, político (…)”. Tal uso adequado, porém, não é possível na base do que é certo ou do que é errado, como reforçado pela imprensa, pelas escolas etc. Questões do tipo “o que é certo” e o “que é errado” “não requerem um conhecimento mais relevante de como fazemos, por exemplo, para organizar um texto em função de: defender um ponto de vista, um princípio teórico; orientar uma argumentação; fazer uma ressalva; apresentar uma justificativa (…) etc. Essas, sim, são habilidades “muito mais úteis socialmente, na vida de cada cidadão”.

Sabe, leitor, a escola nos ensinou a escrever para um único leitor: o professor. Ensinou-nos a escrever sem termos uma razão, de fato, para escrever; uma escrita que não produzia qualquer efeito sobre as pessoas ou situações do nosso dia-a-dia. Escrevíamos por obrigação, para obtermos uma nota. Escrevíamos para nada e para ninguém. Temos visto, porém, que a escrita é para interagir, para intervir em uma dada situação, para defender um ponto de vista, para informar, para se divertir etc. Hoje escrevemos por uma razão e para alguém; escrevemos e temos um retorno de nosso leitor; hoje escrevemos e influenciamos a sociedade em que vivemos; hoje a escrita tem sentido para nós.

O melhor comentário vai ser presenteado

!!! NÃO DEIXEM DE LER ESSE POST !!!

Não tem jeito, né! Para quem gosta das questões que envolvem a linguagem, as férias constituem um ótimo momento para coleta de dados. É sério! Lemos placas em estabelecimentos, placas nas estradas, textos nas paredes de lanchonetes… Cada um mais interessante e engraçado do que o outro. Na agradável cidade chamada São Lourenço, em Minas Gerais, após uma manhã de passeio pelo Parque das Águas, eu e minha família almoçamos em um restaurante que lá havia. No interior dele estava presente o seguinte quadro:

A proposta é a seguinte: quem escrever o melhor comentário/a melhor explicação, expondo, passo a passo, todos os fatores mobilizados durante o processo de atribuição de sentido, bem como a interpretação a que se chega através de tal processo, ganhará um livro da área de Linguística (puxa… tá difícil escrever linguística sem o trema). Claro, será um livro interessante para qualquer tipo de público, especializado ou não.
Uma dica: aproveite os posts e comentários anteriores para que você compreenda melhor como fazer, ok!?

Receberei os comentários e explicações até o dia 21/01/09, quarta-feira.

Reflita, pense, escreva, reescreva, leia… Envie!

Os Pronomes Pessoais e as Variações em Uso

Outros profissionais da área de Letras e Lingüística também estão escrevendo neste blog. O texto a seguir, por exemplo, escrito por Mara Lúcia Fabricio de Andrade – mestre em Lingüística e Língua Portuguesa pela Unesp e doutora em Neurolingüística pela Unicamp – mostra o desuso das formas “vós” e “tu” (ao menos na região de SP) em relação ao uso de formas como “nós” e “a gente”.
Só para terem uma idéia, vejam o
levantamento quantitativo das formas pronominais tu/você, nós/a gente, vós/vocês

É muito interessante. Não deixem de ler o artigo “Os Pronomes Pessoais e as Variações em Uso”.

texto-da-mara-para-o-blog-1812

Para quem quiser falar com autora, o e-maill é: mlfandrade@hotmail.com

Ortografia nas estradas da vida

por Carla Queiroz Pereira em Lingüística & Língua Portuguesa

Um site na Internet mostra textos escritos em portas de bares e restaurantes, em paredes, muros etc. Muitos representam verdadeiras “pérolas” do ponto de vista do funcionamento da linguagem e de nosso sistema de escrita, conforme vemos a seguir. Placas como essas podem ser usadas em sala de aula, a fim de tornar o ensino de língua portuguesa agradável e curioso. Mas lembre-se: o ensino de Língua Portuguesa não se restringe ao ensino de gramática e ortografia!

Crise… trabalho… demissões

Fonte: Super Notícia (MG)

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Falar para escrever
6 outubro 2017
Daniela: Sua explicação foi simples e objetiva. Me ajudou muito. Obrigada...
josiane: Bom dia! Gostaria de conhecer melhor qual é a sua forma de trabalho. Quero me prepara...
Carla Queiroz Pereira: Que bom, Carolina! Aproveite o blog! Beijo grande....
Carolina: AMEI a sua explicação, professora! Farei esse tema para a nossa próxima redação! :) S...
michele: Olá Carla, Li seu artigo sobre as discursivas e concordo com o que você disse, princ...
Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br