Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

Arquivo da categoria Interpretação nas provas e fora delas

Acertar sem interpretar

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Quando você, candidato a concurso público, resolve questões de interpretação de texto de uma prova, e acerta, crê que está no caminho certo, que está se preparando bem e que já consegue interpretar, afinal, a prova foi denominada, pela banca, como sendo de interpretação. Mas eu afirmo que você pode ter aprendido a resolver questões de prova sem, necessariamente, ter aprendido a interpretar. Por que isso acontece? Porque muitas questões de prova cobram aspectos superficiais da leitura de um texto ou tentam confundir os candidatos, ao invés de instigar o raciocínio e a reflexão, próprios de uma atividade de interpretação.

Quando um profissional da linguagem se depara com questões elaboradas por certas bancas, ele simplesmente fica decepcionado. Pensa: “puxa, há tantas coisas legais e inteligentes para serem cobradas”. Ou: “o que há de interpretação nesta ou naquela questão”?  

Pelo fato de muitas bancas não cobrarem interpretação em uma prova assim denominada, acertar questões pode nos dar uma impressão equivocada de que estamos aprendendo a interpretar. 

Para quem quiser conhecer questões de prova em que seja cobrada a interpretação, de fato, sugiro uma olhadinha nas provas da FUMARC, uma banca de MG. Essa banca elabora provas mais inteligentes; servem como uma boa fonte de estudos. 
Os editais da Fumarc têm trazido conteúdos de linguística. Veja só:
LÍNGUA PORTUGUESA – NÍVEL SUPERIOR – TODOS OS CARGOS
Enunciação; Conhecimento prévio; Intertextualidade; Gêneros textuais; Tipologia textual;
Interpretação e Compreensão de textos; Variabilidade lingüística; Semântica: construção de
sentido e efeitos de sentido, sinonímia, antonímia, homonímia, paronímia; Polissemia e figuras
de linguagem; Pontuação e efeitos de sentido; Denotação e conotação; Relações lexicais;
Linguagem verbal e não verbal; Tipos de discurso; Aspectos de textualidade: coesão e
coerência.
 
Muito interessante o edital !!! Tomara que os examinadores de outras bancas também comecem a estudar mais linguística, a raciocinar mais, a pensar mais na hora de elaborar uma prova de INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS.

Provas de Interpretação de Textos: algumas dicas

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas
  • Atenção, candidatos! Por mais incrível que possa parecer, não raras vezes a leitura de um texto inteiro da prova pode ser desnecessária, pois conseguimos resolver muitas questões sem lermos os textos.  Por isso, ao começar a ler a prova de português, faça uma rápida leitura dos enunciados das questões para que você possa decidir se deverá ler o texto inteiro, parte dele ou nenhuma linha das 20 ou 30 que lá podem existir somente com o fim de roubar o seu precioso tempo. É claro, pessoal, há bancas e bancas examinadoras. Raramente não precisaremos ler os textos das provas da FGV ou CESPE, por exemplo, mas já resolvi muitas questões da FCC sem ler os textos, infelizmente. Infelizmente, sim, pois é um absurdo uma prova ser chamada de interpretação de textos se nem todos os textos necessitam ser lidos. Lamentável.

 

  • Não tenha medo dos variados textos que nos cercam diariamente! Eles existem para que você possa aprender, relacionar fatos, refletir sobre os problemas da sociedade etc. Leia diversos tipos de textos (jornalísticos, publicitários, literários e de divulgação científica), de variados temas (saúde, economia, meio ambiente, educação, tecnologia e outros). Para isso, consulte sites que apresentam textos interessantes. Vou sugerir dois, aqui, mas há muitos outros de excelente conteúdo: www.comciencia.br; www.revistapesquisa.fapesp.br . Leia e dê um basta no medo!

 

  • Muitas vezes as bancas examinadoras expõem o título do texto ao final dele. Sugiro, portanto, que, antes de começar a ler o texto, você procure ler o título, bem como o nome do veículo no qual o texto circulou. Isso pode lhe fazer levantar hipóteses sobre que assunto tratará o texto e/ou como será discutido; seu cérebro já faz uma seleção de alguns temas e exclusão de outros.   

 

  • Saiba que as bancas examinadoras, apesar de não raramente apresentarem um texto de leitura aparentemente difícil – textos de antropologia, filosofia, sociologia etc. -, exigirão somente que você consiga estabelecer relações de sentido dentro do texto, sem necessariamente compreender detalhes do que lá está dito/escrito. Sendo assim, mantenha a calma e prossiga na leitura.

 

Bem, há muitas outras dicas sobre o tema “Interpretação de Textos nas provas de concursos públicos”. Poderei postá-las em um outro momento. Grande abraço a todos e bons estudos !!!

Memória e interpretação de charges

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Uma estudante, visitante do blog, pede que eu a auxilie na interpretação de uma charge que sua professora havia passado para a turma da escola analisar e interpretar. Embora a professora tenha proposto tal atividade recentemente, a charge em questão foi criada e publicada em 2008, ou seja, há 3 anos. Qual a implicação disso para o fim desejado pela atividade?  

O professor, ao trabalhar com as charges na sala de aula, precisa verificar quando a charge foi publicada, pois a mobilização do conhecimento exterior à charge e sua interpretação também dependerão da nossa memória a respeito das notícias veiculadas na imprensa numa determinada época. Não podemos apresentar aos alunos uma charge cuja interpretação depende de um conhecimento sobre uma notícia que pode não mais estar em nossas memórias. A charge que segue (Fonte: Gazeta Mercantil-SP), por exemplo, foi publicada dia 24 de março de 2011, dia em que, por 6 votos a 5, a decisão do Supremo Tribunal Federal anula os efeitos da Lei Ficha Limpa para as eleições de 2010. Será que daqui a alguns anos poderá ser interpretada?

Apresentar em 2011 uma charge criada e publicada em 2008, sem tecer explicações prévias que permitiram a interpretação, é supor que o sentido desse tipo de texto se encerra nele mesmo, o que não é verdade.  Uma apresentação assim realizada pode evidenciar, por um lado, a necessidade de professores conhecerem a complexidade envolvida na interpretação dos textos; por outro, pode gerar alunos frustrados por pensarem que não são capazes ou que têm dificuldades de interpretar.

Há alguns outros pontos importantes a serem considerados pelos professores quando da utilização de charges em sala de aula:

- O professor deve levar os alunos a refletirem sobre a construção do sentido dos textos. Como mobilizamos os sentidos nos textos? A partir de quais fatores? Será que os sentidos estão somente nos textos ou trazemos um conhecimento exterior aos textos para que estes sejam interpretados?

- A charge é um tipo de texto cuja interpretação depende, geralmente, de um conhecimento exterior ao texto (à charge), tal como vemos nos exemplos apresentados neste blog;

- O professor pode aproveitar as charges para expor diversos conhecimentos relacionados à economia, política, biologia etc.;

- Os alunos devem ser instigados a pensar… pensar… raciocinar… refazer suas hipóteses etc.

Há outros pontos já abordados no blog! Aproveitem! 

Quadrinhos na sala de aula

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

 

Os quadrinhos afastam as crianças e adolescentes do mundo dos livros ou podem representar, na verdade, um valioso recurso pedagógico em sala de aula? (…) No livro “Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula”, os autores provam que antigos preconceitos contra esse tipo de história não têm fundamento. Por meio de exemplos práticos e muitas sugestões de atividades, os educadores econtrarão na obra uma fonte inesgotável de inspiração para trabalhar as HQs com seus alunos.

Uma leitura que vale a pena. Recomendo!

Interpretação de tirinhas – Calvin !

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

 

Fiz um convite à Elisângela Bassi, amiga, ex-colega do mestrado/Unicamp e profissional da área de Linguística e Fonoaudiologia. Queria muito que ela escrevesse no ”A Escrita nas Entrelinhas”. Ela aceitou! Que bom!!! Segue sua preciosa contribuição a todos aqueles que buscam aperfeiçoar a leitura e interpretação dos textos.   

 

Agradeço a Carla – querida e competente profissional – pelo convite para postar um texto interpretativo em seu blog.

Em razão dos últimos concursos, vestibulares e provas do Enem, escolhi interpretar uma tirinha em quadrinhos. A leitura interpretativa deste tipo de texto, assim como de charges, requer uma construção de sentidos que, para que ocorra, é necessário mobilizar alguns processos de significação, como a percepção da atualidade, a representação do mundo, a observação dos detalhes visuais e/ou linguísticos, a transformação de linguagem conotativa (sentido mais usual) em denotativa (sentido amplificado pelo contexto, pelos aspetos sócio-culturais etc). Em suma, usa-se o conhecimento da realidade e de processos linguísticos para ‘inverter’ ou ‘subverter’ produzindo, assim, sentidos alternativos a partir de situações extremas. 

Clique sobre a tirinha para melhor visualizá-la.

  

O objetivo do Calvin era vender ao seu pai um desenho de sua autoria pela exorbitante quantia de 500 dólares. Ele optou por valorizar o desenho, mostrando todas as habilidades conquistadas para conseguir produzi-lo. O pai, no último quadrinho, reconhece o empenho do filho, utilizando-se de um conector de concessão (‘Ainda assim’), valorizando a importância de tudo aquilo. Contudo, afirma que não pagaria o valor pedido (como se dissesse: “sim, filho, foi um esforço absurdo, mas não vou pagar por isso!”).

A graça está no fato de Calvin elaborar um discurso “maduro” em relação ao seu desenvolvimento cognitivo e motor nos dois primeiros quadrinhos e, somente depois, ficar claro para nós, leitores, que toda a força argumentativa foi em prol da cobrança pelo desenho que ele mesmo fez. Em outras palavras, o personagem empenha-se na construção de um raciocínio em prol de uma finalidade absurda – o que nos faz sorrir no último quadrinho, já que é somente nele que conseguimos ‘completar’ o sentido. Claro, se você conhece os quadrinhos do Calvin, sabe que ele tem apenas 6 anos, o que torna tudo ainda mais hilário, mas a falta deste conhecimento não prejudica em nada a interpretação textual.  

http://www.artesanatotextual.blogspot.com/

elisbassi@gmail.com

Eleições: “o poder está sempre vazio”

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

“Eleições (…) não significam ‘mera alternância no poder’, mas assinalam que o poder está sempre vazio, que seu detentor é a sociedade e que o governante apenas o ocupa por haver recebido um mandato temporário para isto. Em outras palavras, os sujeitos políticos não são simples votantes, mas eleitores. Eleger, como já dizia a política romana, significa exercer o poder de ‘dar aquilo que se possui, porque ninguém pode dar o que não tem’, isto é, eleger é afirmar-se soberano para escolher ocupantes temporários do governo”.

Fonte: CHAUÍ, M. Escritos sobre a universidade. São Paulo: Ed. Unesp, 2001.

Copa do mundo

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Charge de J. Bosco,

Jornal O liberal

 

Dizer sem dizer

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máxima de 38º, em Brasília“.

Pelo que conhecemos da leitura de jornais, que tipo de notícia é esta? Informação sobre o clima, certo? Errado. Só parece!

No dia 14 de dezembro de 1968, durante a ditadura no Brasil (1964-1985), foi anunciado o Ato Institucional núm. 5, que representava um endurecimento do regime militar. O Ato conferia enormes poderes ao Executivo, decretava o recesso do Congresso Nacional, proibia manifestações políticas e colocava fim à liberdade de imprensa.  

 

Assim, o jornal do Brasil arriscou uma primeira página corajosa na edição de 14/12/68, conseguindo burlar a censura (Mayrink, 2008)*. No lado esquerdo da primeira página, no alto, o quadradinho trazia o texto que foi apresentado no início deste post. Fantástico o que podemos fazer com a linguagem. Podemos dizer sem dizer, dizer uma coisa para significar outra… Para o contexto político da época, a informação não tinha nada a ver com o clima.

 * Mayrink, J. M. Mordaça no Estadão. São Paulo: O Estado de São Paulo, 2008.

Apagão

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Fonte: Jornal “O Popular” (GO)

Linguagem verbal e não verbal

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

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6 outubro 2017
Daniela: Sua explicação foi simples e objetiva. Me ajudou muito. Obrigada...
josiane: Bom dia! Gostaria de conhecer melhor qual é a sua forma de trabalho. Quero me prepara...
Carla Queiroz Pereira: Que bom, Carolina! Aproveite o blog! Beijo grande....
Carolina: AMEI a sua explicação, professora! Farei esse tema para a nossa próxima redação! :) S...
michele: Olá Carla, Li seu artigo sobre as discursivas e concordo com o que você disse, princ...
Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br