Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

Arquivo da categoria Interpretação nas provas e fora delas

Para quem pensa que os textos motivadores não servem para (quase)nada…

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Vejamos os seguintes textos motivadores (prova do TRT-9ª – Técnico):

Apesar da presunção de veracidade que confere autoridade, interesse e sedução a todas as fotos, a obra que os fotógrafos produzem não constitui uma exceção genérica ao comércio usualmente nebuloso entre arte e verdade. Mesmo quando os fotógrafos estão muito mais preocupados em espelhar a realidade, ainda são assediados por imperativos de gosto e de consciência. [...]

O problema não é que as pessoas se lembrem através das fotografias, mas que se lembrem apenas das fotografias. (SONTAG, Susan. “Na caverna de Platão”, em Sobre a Fotografia, São Paulo, Companhia das Letras, 2008).

O comando da prova foi o seguinte:

A partir do trecho acima, escreva um texto dissertativo-argumentativo sobre o seguinte tema: A imagem como produtora de sentidos na modernidade.

A palavra “imagem” neste tema deve ser interpretada conforme os textos motivadores, afinal o enunciado de uma questão dissertativa deve ser lido como um todo organizado de sentido; ou seja, deve ser lido tendo-se em mente que o sentido de uma parte depende das demais com que se relaciona. Sendo assim, o primeiro passo é descobrir o sentido de “imagem” no contexto em que ela aparece.

Ora, os textos motivadores tratam da questão da verdade na produção de imagens fotográficas, dos fatores que atravessam a produção de uma imagem etc. O tema, por sua vez, afirma que as imagens produzem sentidos, significados, ou seja, nos induzem a pensar algo, a formar uma opinião sobre algo, a construir um sentido a respeito. Se olharmos ao nosso redor, perceberemos que a mídia está repleta de exemplos em que as imagens produzem sentidos, seja no contexto da imprensa, das propagandas, das telenovelas etc.

Portanto, candidato, não atribua um sentido que não é aquele atribuído pela leitura dos textos motivadores juntamente com o tema.  Ler e interpretar o tema é crucial para a escrita de um bom texto dissertativo; sem isso o candidato acaba tangenciando o tema ou fugindo dele, tal como se lê na introdução da dissertação a seguir (INADEQUADA):

“É percebido que, na contemporaneidade, o homem preocupa-se bastante com sua imagem. Entretanto, tal preocupação excessiva é prejudicial ao indivíduo”.

Por que está inadequada essa introdução? Porque o sentido de “imagem” nela exposto já mudou, contrariando o sentido dado pela banca.

 

Prova de português da FGV: isso, sim, é interpretar!

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Você também é uma daquelas pessoas que morre de medo das questões de português ou detesta fazer esse tipo de prova?

Há poucos dias, querido leitor, recebi várias reclamações da prova de português do TRT/SC, elaborada pela FGV. Resolvi as questões para entender a razão dos descontentamentos e até revoltas…

Conclusão: os candidatos às provas do TRT estão muitíssimo (mal)acostumados com as questões rasas e superficiais da FCC; sim, rasas, pois um professor que pega a prova de português da FCC para resolver percebe logo que a interpretação demandada por essa banca é simplória, exigindo-se bem pouco em termos de atividade realmente interpretativa. Não é isso o que ocorreu com a última prova de português do TRT/SC. Um professor que tem boa base de funcionamento da linguagem consegue compreender os conhecimentos linguísticos e discursivos que foram cobrados pela FGV. Aquela era, de fato, uma prova de interpretação, afinal não era suficiente a mera memorização de conteúdos e a reprodução destes; muito mais do que isso, era preciso que o candidato mobilizasse diversos conhecimentos, a exemplo daquela questão sobre o texto “analgésico espinhoso”.

Para respondê-la corretamente, o candidato teria de transitar do sentido conotativo para o denotativo; precisaria perceber que a ordem com que os períodos foram colocados no texto era determinante na atribuição de um sentido e não de outro; necessitava levar em consideração o fato de o texto ter sido publicado em uma revista científica etc. A questão era muito inteligente! ISSO, SIM, É PROVA DE PORTUGUÊS; ISSO, SIM, É INTERPRETAR.

O que precisamos mudar então? Precisamos começar a estudar português de verdade! E com base linguística, não meramente gramatical.

As provas da FGV e da banca CESPE são nesta linha. Não fuja dessas provas, aprenda adequadamente e, mais uma vez, cuidado com cursos que não conseguem ensiná-lo a pensar de maneira criativa.

Interpretar para escrever

Nem sempre a interpretação de um enunciado de prova dissertativa se faz de maneira satisfatória, de modo a conduzir o candidato a uma escrita condizente com a proposta da banca. Atendendo e interagindo com dezenas de candidatos toda semana, noto ser muito comum a leitura realizada de forma esparsa, isolada, sem estabelecimento de relações de sentido entre as partes do texto. Por isso, queridos leitores, segue aqui uma orientação:

Um texto é um todo organizado de sentido, significando dizer que o sentido de uma parte depende do sentido das demais com que se relaciona. Sendo assim, não se pode fazer interpretação isolada das partes de um texto, afinal, todas elas terão uma relação de sentido lógica. Aplicando-se isso às provas da FCC, notem que, geralmente, o período que abre o texto do qual extrairemos o tema (refiro-me àquelas provas em que a banca não explicita o tema, optando por somente apresentar um texto a partir do qual escreveremos a redação) funcionará como “carro-chefe”, de modo que os demais períodos são lidos (ou devem ser lidos) sem nos esquecermos do sentido daquele primeiro. Lembre-se: um texto é um todo organizado de sentido e entre suas partes deve haver uma relação semântica, uma coesão. Os vários períodos que compõem um texto não são vários textos, mas partes de um único texto dotado de unidade de sentido!

Boas leituras e excelentes produções a todos! Beijo grande.

Antes de dissertar você precisa interpretar!

No concurso para o cargo de AJAA, do TRT-PR, ocorrido no dia 29.11.15, a banca examinadora não deixou explícito, em uma frase, o tema da redação; exigindo um conhecimento ainda mais amplo e refinado do candidato, apresentou um textinho que deveria ser, primeiramente, interpretado. Uma adequada interpretação era elementar para o reconhecimento/a identificação do tema por parte do candidato. Sem isso a redação já começaria comprometida!!! Portanto, vamos a alguns comentários a respeito do referido tema!

Epicuro havia percebido que as leis não educam: que não eram feitas para serem propriamente obedecidas, mas para garantir, sobretudo, a possibilidade de punição. Ele se deu conta, por um lado, de que a educação e as necessidades básicas do ser humano deveriam ser gerenciadas pela pólis (Estado); por outro lado, viu que era preciso, de algum modo, isolar para educar, porém, sem reclusão, porque a virtude do caráter político não se reduz, afinal, a um modelo ou teoria, tampouco ao recinto de uma instituição ou de uma pólis. 

(Adaptado de: SPINELLI, Miguel. Epicuro e as bases do epicurismo. São Paulo, Paulus, 2013, p. 8)

Começo por três conhecimentos básicos, fundamentais para a leitura e interpretação de qualquer texto:

1. UM TEXTO NÃO É UMA MERA SOMA OU SEQUÊNCIA DE FRASES ISOLADAS; ou seja, há sempre uma relação de sentido entre um período e outro, entre um parágrafo e outro.

2. O SENTIDO DE UMA PARTE DEPENDE DO SENTIDO DAS DEMAIS COM QUE SE RELACIONA, O QUE CONFERE COESÃO AO TEXTO;

3. UM TEXTO SEMPRE GUARDA UMA RELAÇÃO COM OUTROS TEXTOS JÁ EXISTENTES; por essa razão, leitor, interpretar um texto é também trazer para a leitura deste os conhecimentos prévios sobre outros textos já lidos.

Esses conceitos ficarão mais claros à medida que comentarmos o textinho da prova. Vamos lá!

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TRT-PR: atenção!

Como muitos sabem, também venho prestando alguns concursos dos Tribunais Regionais do Trabalho. Em função disso, e por trabalhar constantemente com ‘concurseiros’, não poderia deixar de fazer um alerta quanto à elaboração de algumas questões de interpretação.  No último concurso do TRT, ocorrido no RS, pelo menos uma questão de interpretação foi mal elaborada (para quem fez a prova tipo 4, tratava-se da questão de número 3); simplesmente a afirmação contida na alternativa tida como gabarito não podia ser depreendida da leitura do texto. Eu e todos os clientes com os quais trabalho diariamente “erramos” (perguntei a todos eles qual a alternativa marcaram nessa questão!). Sim, erramos entre aspas, afinal, neste caso, o erro foi da banca!

Confesso que tenho, nos últimos meses, estado bastante desconfiada quanto à integridade e à competência da banca FCC para elaborar questões da provas de português; ao invés de aumentar o nível da prova ou cobrar interpretação de fato (aspectos semânticos de um texto), a FCC tem elaborado questões que, na verdade, estão repletas de erros conceituais do ponto de vista do funcionamento da língua. E essa não é uma observação somente minha…

Sendo assim, candidato a concursos públicos, não deixe de fazer, daqui para frente, uma distinção entre o que você realmente não aprendeu ainda e o que você já aprendeu e a banca tenta mostrar que não! Ter esse discernimento é muito importante!

Ora, já que a banca precisa eliminar candidatos, caro leitor, há meios de se fazer isso; um bom profissional da área de linguística conseguiria elaborar questões mais complexas, inteligentes, que exigiriam um conhecimento mais aprofundado da matéria. Mas não é esse o caminho que a FCC tem tomado; ela, ao que tudo indica, elabora mal algumas questões, e propositadamente, deixando os candidatos à mercê da própria sorte. Sim, mera sorte…

Está aqui para quem quiser ver! http://www.concursosfcc.com.br/concursos/trt4r115/provas/Prova-AJ-Tipo-004.pdf

 

Tomara que no próximo concurso, do TRT-PR, a ser realizado em Curitiba, não tenhamos, eu e você, de contar com a sorte. Só precisaremos de sorte, naquele dia, para pegarmos um período de sol em algum daqueles parques na bela Curitiba! Sim, é possível conciliar provas com um breve tour!

Como tem sido seu desempenho nas questões de interpretação da FCC?

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Muitos candidatos se queixam de que, apesar de já estudarem português há algum tempo, ainda erram muitas questões de interpretação. Por que isso ocorre? Preparar-se para uma prova de interpretação não é como preparar-se para responder questões de gramática. Enquanto as questões de gramática são mais previsíveis e, por isso, passíveis de memorização, as de interpretação são variadas e muitas vezes não previsíveis, obviamente pela singularidade dos textos.

Aliás, o que é interpretar? Realmente conhecemos os fatores envolvidos (e que devemos mobilizar) no trabalho de atribuição de sentido e interpretação? Durante a leitura dos textos expostos pela FCC, a quais aspectos precisaremos dedicar maior atenção?

Se você ainda erra questões de interpretação ou acerta com dúvida, está na hora de trabalhar de forma mais sistemática e adequada. É preciso saber o que está na base da interpretação. É preciso conhecer o papel do contexto (aliás, como identificá-lo); descobrir as intenções/os objetivos do autor do texto exposto na prova; saber estabelecer relações de sentido entre uma parte e outra do texto; compreender claramente que o sentido de uma parte depende das demais partes; identificar os recursos coesivos e entender os sentidos provocados por determinados elementos de coesão. Esses são só alguns importantíssimos aspectos.

Como, geralmente, trabalho esses e outros aspectos durante as aulas?

Sempre me baseio nas questões que você tem acertado com dúvida ou errado. Inicialmente, de forma bem simples e prática, trabalho aspectos teóricos fundamentais sem os quais uma boa interpretação se torna tarefa impossível. Em seguida, passamos às questões; importará, neste momento, conhecer as razões pelas quais você tem errado, compreender o seu raciocínio (o caminho que você percorreu para responder) e, a partir disso, intervir sobre ele, de forma que você possa refazer as hipóteses e marcar a opção correta. Passo a passo, prova após prova você perceberá que as dificuldades serão sanadas…

Bora trabalhar e acertar as 15 questões do TRT-PR!

Testando seus conhecimentos

Teste seus conhecimentos com esta recente prova do TRT-BA:

Nas metrópoles em que o turismo representa uma grande força econômica, podem ocorrer atritos entre os valores da cultura local, que o tempo tornou tradicionais, e a busca de novidade ou de exotismo, da parte de muitos visitantes. Há meios para se minimizarem esses atritos, de modo que tanto os habitantes da cidade como seus visitantes se sintam respeitados. Trata-se, mais uma vez, de uma justa distribuição de direitos e deveres.

Redija uma dissertação em prosa, posicionando-se e argumentando, diante do que afirma o texto acima.

COMO VOCÊ INTERPRETA O ENUNCIADO? Como você relaciona o primeiro período ao segundo do enunciado, bem como o segundo ao terceiro? (Ou seja, quais as relações de sentido entre um período e outro?). Interpretar corretamente é fundamental para selecionar as informações adequadas para a elaboração da dissertação.

Cumprindo promessas

Continuando o post anterior…
Nunca sugiro desprezar o texto motivador como se ele não servisse para a escrita da dissertação. Aliás, não raras vezes, é por meio dele que compreendemos o caminho a ser percorrido durante a escrita e atribuímos sentido a determinadas palavras ou expressões presentes no tema. No caso do enunciado da prova do TRT da 4ª Região/2011, por exemplo, exposto no post anterior, o texto motivador ali estava por qual razão? Ora, se lermos o tema – “os órgãos de imprensa apenas espelham a realidade” -, perceberemos que o texto motivador estava ali também (depois explico o motivo do “também”) para que pudéssemos relacioná-los. Como? Bem, se o candidato assumisse que os órgãos de imprensa não somente espelham a realidade, mas também a deturpam, constroem etc., a relação seria a seguinte: os órgãos de imprensa se utilizam da liberdade garantida constitucionalmente para não apenas espelhar a realidade, mas também alterá-la, construí-la etc.

Embora o texto motivador tenha a sua utilidade, VALE UM ALERTA! Dizer que o texto motivador não deve ser desprezado não significa afirmar que ele sempre nos será plenamente útil ou que toda a ideia contida no tema está também nele. Prova disso é o fato de a banca ter, no texto motivador da prova do post anterior, induzido o candidato a pensar que o tema era “liberdade de imprensa” (já vimos que não era!). Aliás, nesse concurso, muitos candidatos fugiram do tema, pois leram mal o enunciado, guiando-se somente pelo texto motivador. Eis, portanto, a segunda utilidade do texto motivador: induzir o candidato ao erro.

Cumprida a promessa de continuar o post anterior!!! Ufa!

Leitura e interpretação do tema: por que muitos erram?

Lendo, toda semana, dezenas de textos produzidos por candidatos a concursos públicos, noto que uma dificuldade muito comum entre eles está na interpretação do tema, na descoberta daquilo que a banca espera ler na dissertação. O resultado disso é perda de muitos pontos (e, consequentemente, eliminação do candidato) em decorrência de fuga do tema, total ou parcial. Por que essa fuga acontece? Como evitar isso?

Tal fuga acontece, basicamente, por leitura de partes isoladas do enunciado, sem consideração do todo. Ou seja, o candidato atribui o sentido a uma parte da questão, mas deixando de relacionar tal sentido com o sentido das demais frases ou períodos do mesmo enunciado. Um exemplo ilustrará bem esse fato. Vejamos o seguinte tema:

TRT 4ª REGIÃO – FEVEREIRO 2011

O direito à informação é um dos sustentáculos do mundo democrático. Sem esse direito, ou usufruindo-o de modo apenas relativo, não temos como compreender e julgar situações, More

O sentido vem… e vai…

por Carla Queiroz Pereira em Interpretação nas provas e fora delas

Charge publicada no site www.acharge.com.br , elaborada por Amarildo para o “A Gazeta”.

Charge feita originalmente para o “Estado de Minas”, publicada também no site www.acharge.com.br

O interessante é que essas charges não farão o menor sentido daqui a algum tempo !!!

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6 outubro 2017
Daniela: Sua explicação foi simples e objetiva. Me ajudou muito. Obrigada...
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Carla Queiroz Pereira: Que bom, Carolina! Aproveite o blog! Beijo grande....
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michele: Olá Carla, Li seu artigo sobre as discursivas e concordo com o que você disse, princ...
Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br