Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

Arquivo da categoria Dislexia

Vídeos no blog: mais dinamismo e interatividade!

Olá, pessoal! Preciso da opinião de vocês.

Penso que a introdução de vídeos no blog pode ser muito interessante. Posso postar vídeos com comentários de questões de interpretação, vídeos com depoimentos de pais a respeito do aprendizado da escrita/leitura de seus filhos, com descrição e análise de algum fenômeno linguístico, sobre alguma experiência vivida nas consultorias que presto etc. Puxa, podemos até ter entrevistas com linguistas, fonoaudiólogos com formação em linguística e profissionais da área.

Acho que isso pode estreitar muito o nosso contato… vai ser como ver vocês… como tê-los bem perto. Que prazer!

Gostaria de saber a opinião de vocês a respeito. Gostaram da ideia? Querem sugerir algo?

Para os pais

Este pode ser um material muito útil a professores, fonoaudiólogos, psicólogos, psicopedagogos e médicos. Para uma versão impressa, clique no link abaixo:
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Como a fonoaudiologia tem atuado em relação à linguagem?

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita, Dislexia

Muitos que visitam o “A Escrita nas Entrelinhas” ainda não sabem que, antes de eu estudar Linguística (fazer o mestrado), minha formação de graduação foi em Fonoaudiologia. Um dia irei contar como se deu minha busca pela Linguística, mas posso adiantar que ela partiu de uma inquietação. Muito me incomodava a maneira como a Fonoaudiologia avaliava (e ainda avalia) e diagnosticava (e ainda diagnostica) os pacientes com alterações de linguagem decorrentes de acidentes vasculares cerebrais (AVC’s), por exemplo, e aqueles com queixas de dificuldades de leitura e escrita, não oriundas de doenças orgânicas. Diante desse incômodo, passei a ler textos escritos por linguistas, graças a Deus.

A Fonoaudiologia tem atuado, ainda, de maneira muito superficial em relação às questões de linguagem: não consegue interpretar os fatos de linguagem; interpreta o “erro”, não raras vezes, como sinal de patologia, atribuindo um diagnóstico – de dislexia, de distúrbios de aprendizagem, de desordem do processamento auditivo etc. – sem saber o que, de fato, está diagnosticando. Como é possível que muitos (não todos) fonoaudiólogos falem em “dificuldades de leitura”, se desconhecem os complexos processos linguísticos envolvidos no ato de ler? Acostumados a ler somente textos produzidos pela área da saúde, aceitam tudo o que é dito, sem buscar na educação e na Linguística explicações plausíveis, resultantes de longos anos de estudos e pesquisas. (Não busquem, talvez, pelo esforço intelectual que as leituras dos textos dessas áreas demandam).

Como podem afirmar “problemas de compreensão” se, para muitos, qualquer não compreensão é sinal de dificuldade do sujeito supostamente avaliado? Se desconhecem, por exemplo, os N fatores que devem ser mobilizados para que a interpretação seja possível? (sobre tais fatores, sugiro ver alguns exemplos no blog). Isso tudo sem contar, ainda, a concepção de cérebro que está implicada nesse tipo de afirmação. Nem vou falar sobre isso agora.

Por que não aprendemos a investigar os fundamentos dos “erros” em vez de considerá-los como indício de problema neurológico? (Leia o post “virtudes no erro”). Por que não aprendemos a trabalhar, quando necessário, sobre os textos daqueles que nos procuram?

Oficina sobre escrita – parte do material utilizado

Os slides aqui apresentados foram disponibilizados durante uma oficina que ministrei no mês de fevereiro deste ano.
Nela os participantes foram instigados a pensar na escrita a partir do sentido do que escrevem, considerando que um texto não é um amontoado de frases dispostas umas após outras. Em uma troca constante entre participantes e professor, a oficina não teve como propósito dizer “isso é certo” ou “isso é errado”, mas sim, identificar as dificuldades daqueles e intervir sobre elas. Nessa intervenção, importou que os participantes refizessem suas hipóteses de escrita, elegendo a melhor forma para dizer/escrever algo. Puderam, assim, perceber que a escrita de bons textos não se restringe aos aspectos gramaticais e/ou ortográficos. obs: os slides representam apenas uma parte do material entregue.

“Virtudes no erro”

Esse post é para quem se interessa por temas como “dislexia”, “erros de escrita”, “gramática”, “ortografia”, “diagnósticos de aprendizagem” etc. É muuuuuiiiiito bom!
Os erros nunca mais serão os mesmos para você!

Virtudes no erro – Sírio Possenti

(texto publicado no site http://terramagazine.terra.com.br)

Bisbilhotando comentários de leitores no blog do Nassif, encontrei a grafia “medilcridade” para “mediocridade” e achei que era um bom tema. A conexão imediata foi com o Alvará redigido por Gaspar de Seixas, em 1571, que o fez por ordem de Jorge da Costa (Iorge da Costa, está lá), liberando a edição de Os Lusíadas, muito instrutivo e até divertido para quem queira fazer observações históricas sobre escrita. A conexão foi imediata porque lembrei, em especial, as duas grafias imprimir e emprimir, sem contar, por exemplo, aja por haja, diãte por diante, declarão por declaram etc., “erros” que qualquer escolar pode cometer – e comete – hoje.

O cidadão comum escolarizado – mas, especialmente, um desses plantonistas da língua, que, na verdade, mal a conhecem, não por serem obtusos, mas por usarem instrumentos inadequados de análise – imaginará que esse comentador de blogs deveria estudar um pouco, para deixar de fazer mal à língua pátria. Mas o leitor mais curioso veria aí um indício, um fato que revela alguma coisa interessante sobre nossa língua. Afinal, o internauta certamente quis escrever direito, fazer boa figura, e, se errou, o erro deve ter uma explicação.

Vamos a ela: sabe-se que as vogais /e/ e /o/ sofrem um processo de alçamento em contextos átonos, tanto finais quanto pré-tônicos – por isso muita gente diz mininu, curuja e patu, porque as vogais em negrito são átonas, mas não diz cuco (e sim coco) nem cocú (e sim cocô), nem prito e voci (e sim preto e você) etc., porque agora as vogais destacadas são tônicas. Para resumir, os sons representados pelas letras (no caso, pelos fonemas) /e/ e /o/ “transformam-se” em i e u em contextos átonos, na fala da maioria dos brasileiros. Seguindo essa regra, nosso leitor provavelmente diria mediucridade, com u, embora a grafia legal seja mediocridade, com o.
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*Amo ler!!!

Tenho a honra de ter em minha casa uma adorável criança: é a Lídia, amante dos livros, mesmo quando certos exemplares parecem não amá-la. Como assim?, você me perguntará. Você entenderá ao ler o relato dessa fantástica garotinha de 9 anos, aluna da 5ª série de uma escola pública de Diadema-SP.

Na escola não tenho nem os livros nem o silêncio. Os livros são aqueles cheios de pó, parecendo que ninguém nunca abriu… lá não acho coisas interessantes e legais para ler… não tem UM livro da Ruth Rocha; até um atlas é difícil de achar. E mais: como quase ninguém gosta de ler, a biblioteca é barulhenta. Um dia perguntei à professora se eu podia falar com a diretora da escola para ela resolver o problema. Hum… cada dia era uma desculpa diferente. Ainda bem que sou aquela pessoa que corre atrás“.

Carla: Quando foi que você começou a gostar de ler, Lídia?
Lídia: Quando eu aprendi a ler. Eu queria ler as placas nas ruas, eu queria ler tudo.

Bom, pessoal, depois dessa só me resta presentear a Lídia com um livro da Ruth Rocha, não é mesmo?

*Título dado pela própria Lídia; ela está bem aqui ao meu lado.

Uma vida inteira convivendo com um diagnóstico equivocado

Sempre achei que eu tinha um problema (uma dislexia ou uma dificuldade para aprender), mas depois que vi os textos de BR (ver Slides postados com o título “A Escrita e seus diagnósticos…”), percebi que escrevia, quando criança, da mesma maneira que ela; eu só precisava de alguém para me mostrar o que acontecia… alguém para me dar uma ajudinha“. (VV, profissional da área de Direito rotulada, quando criança, equivocadamente, como tendo dificuldades para escrever, o que resultou em aversão à escrita e traumas que perduram até os dias de hoje).

Para pensarmos: quem, de fato, trabalhou com VV no sentido de fazê-la refletir sobre seus textos? Quem trabalhou os textos com o objetivo de que VV mudasse sua relação com a escrita e descobrisse o prazer em escrever?

Escrever: por que muitos não aprenderam? – Parte II

Quem não tem a prática constante de leitura/escrita significativa de textos, dentro e fora da escola, e comete certos “erros” na hora de escrever, acaba sendo rotulado, equivocadamente, de disléxico por professores, fonoaudiólogos, psicólogos etc., como já vi ocorrer com N crianças, adolescentes e até jovens universitários. Eles não tinham qualquer “doença”; somente passaram por um processo de ensino da leitura e escrita em que não lhes foi dado um espaço para o errar e o reconstruir de maneira inteligente, para o pensar e o refletir.

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Só para não acharem que é um exagero tudo isso que estou falando, vou contar um caso (se quiserem posso contar outros): recentemente uma aluna do curso de Letras de uma universidade particular me disse que a professora propôs a seguinte redação em sala de aula: “escrevam um texto com o provérbio ‘o mesmo risco que corre a minhoca, corre também a enxada’”. Então lhe perguntei: “qual foi sua sensação ao tentar escrever?” Ela me disse: “Eu simplesmente não tinha nada pra dizer… como a maioria dos alunos, eu nem conhecia aquele provérbio… aí tentei achar um sentido, mas não gostei do meu texto”. Percebendo que a aluna não entendeu o porquê da sensação que lhe gerava culpa, comecei a explicá-la sobre o que já disse aqui…dos requisitos para se produzir um texto etc.

A dislexia não é dislexia – Parte II

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita, Dislexia

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Texto escrito por BR, uma garotinha de 6 anos que cursava o antigo “pré”. A professora disse que BR não poderia ir para a 1ª série porque não conhecia as letras. 

Não adianta só dizer “isso é certo”, “isso é errado” e atribuir uma doença ao que foge do esperado; escrever é uma atividade complexa e que deve ser analisada tendo em vista tal complexidade. É claro, há crianças e adultos que apresentam uma escrita não compatível com a idade e o número de anos que passaram na escola, mas isso se deve a outras razões e não pode ser visto como um distúrbio ou patologia (veja Escrever: por que muitos não aprenderam?).

Ao invés de diagnosticar como disléxico, deve-se entender o funcionamento da escrita, saber interpretar os “erros” e intervir sobre eles; uma intervenção que vai muito além de dizer ao escrevente “escreva assim” ou “não escreva assim”, isto é, que o leve a refletir/pensar sobre a própria escrita, levantar hipóteses sobre como se escreve, seja uma palavra ou uma frase em relação a outra… o texto como um todo.

A dislexia não é dislexia – Parte I

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita, Dislexia

As escolhas feitas pelo aprendiz da escrita – muitas vezes “erradas” - têm uma via explicativa que se relaciona com as possibilidades do sistema de escrita; além disso, tais escolhas demonstram que o escrevente está aprendendo e refletindo sobre o objeto (a escrita). A escrita da palavra “fugio”, por exemplo, é muito comum quando o aluno já conhece a forma ortográfica de determinadas palavras e sabe que a pronúncia destas é diferente; como muitas palavras que terminam em o são pronunciadas com u (Paulo, limpo, pano, menino, etc.), o aprendiz escreve todas as palavras com o som de u, no final, com a letra o. Por essa razão, os erros que normalmente são chamados de dislexia, quando melhor analisados, não são.

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6 outubro 2017
Daniela: Sua explicação foi simples e objetiva. Me ajudou muito. Obrigada...
josiane: Bom dia! Gostaria de conhecer melhor qual é a sua forma de trabalho. Quero me prepara...
Carla Queiroz Pereira: Que bom, Carolina! Aproveite o blog! Beijo grande....
Carolina: AMEI a sua explicação, professora! Farei esse tema para a nossa próxima redação! :) S...
michele: Olá Carla, Li seu artigo sobre as discursivas e concordo com o que você disse, princ...
Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br