Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

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Processamento Auditivo: ouvindo outras fontes

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita

O que tem sido entendido por “compreensão” nos textos escritos por fonoaudiólogos, otorrinolaringologistas e neurologistas? Há algo a ser questionado em relação às associações feitas entre Desordem do Processamento Auditivo*e Linguagem (Auditory Processing Disorders and Language)? O que um histórico sobre os testes de processamento auditivo “revelam” sobre sua validade para fins de diagnóstico?

Essas são algumas questões que apresento em um capítulo de um livro ainda não publicado (não sei qual será seu título). Ainda assim, gostaria de compartilhar um pedacinho do texto (quem sabe… dois) com aqueles que têm uma “pulga atrás da orelha” sobre o tema, mas que ainda não tiveram coragem de escrever sobre. Na verdade, gostaria de já publicar as 22 páginas que escrevi, mas não posso, óbvio.

Homens e mulheres de toda a terra são dotados de um patrimônio comum: um mesmo conjunto de estruturas e funções cerebrais (MECACCI, 1987), mas com uma variada organização funcional, conforme as diferentes experiências que vivenciam. A organização funcional do cérebro está, pois, estritamente relacionada aos aspectos culturais e sociais. Aplicando-se esse fato à percepção dos sons e à compreensão do que ouvimos, observa-se que as percepções e compreensões de uma pessoa podem não ser equivalentes às de seu interlocutor, considerando-se que muitos fatores – os sistemas de referência, o contexto, o conhecimento partilhado entre os interlocutores, o conhecimento de mundo, etc. – estão em jogo na tarefa de compreender, conforme alguns exemplos expostos neste capítulo. Em um deles vimos que o enunciado “açúcar mascavo”, dito pela mãe de duas crianças, foi entendido como “açúcar mais caro”, por uma delas, e como “açúcar mascado”, por outra, pois a palavra “mascavo” ainda não faz parte do sistema de referências de tais crianças em processo de aquisição da linguagem. Compreender, portanto, não é decodificar e, durante a audição, sempre haverá a busca pelo sentido. Não sendo a compreensão uma mera decodificação, não separamos, pois, a linguagem da percepção/audição; não separamos as experiências que vivenciamos do que percebemos via audição.

(…)
Toda afirmação que envolve linguagem e cérebro de um sujeito particular requer cuidadosa análise, levando em consideração a complexidade de ambos. A falta de conhecimento sobre o complexo funcionamento da linguagem, bem como sobre a dinâmica da atividade cerebral por parte de profissionais da saúde, pode levar a afirmações equivocadas a respeito das crianças que aprendem, o que traz conseqüências para a vida delas e de seus pais (…).

*Para quem ainda não ouviu falar sobre o assunto, Processamento Auditivo é um tema difundido entre profissionais da área de saúde e educação, e tem sido relacionado à escrita, à leitura etc. De que forma? Alguns testes (de processamento auditivo) são aplicados e, dependendo das respostas recebidas, os sujeitos sob teste recebem o diagnóstico de desordem do processamento auditivo. Tal diagnóstico acaba justificando, não raras vezes, as supostas dificuldades de escrita e/ou compreensão/interpretação. Falando assim parece que é simples… parece que não há muitos problemas com isso… Será?

Vale ressaltar que a escrita do capítulo somente foi possível pelos conhecimentos adquiridos no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, instituição em que cursei o Mestrado na área de Neurolingüística, sob orientação da profª. Maria Irma Hadler Coudry (Maza). Mais uma vez, Maza, obrigada!

Uma informação da autora deste blog

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita

Olá, pessoal! Desculpem-me por não ter postado nada nos últimos dias. Estava de licença médica… cuidando da saúde. Mas hoje mesmo retomarei os posts, ok! Há muitas coisas legais vindo por aí.

Abração. Carla. 

Uma vida inteira convivendo com um diagnóstico equivocado

Sempre achei que eu tinha um problema (uma dislexia ou uma dificuldade para aprender), mas depois que vi os textos de BR (ver Slides postados com o título “A Escrita e seus diagnósticos…”), percebi que escrevia, quando criança, da mesma maneira que ela; eu só precisava de alguém para me mostrar o que acontecia… alguém para me dar uma ajudinha“. (VV, profissional da área de Direito rotulada, quando criança, equivocadamente, como tendo dificuldades para escrever, o que resultou em aversão à escrita e traumas que perduram até os dias de hoje).

Para pensarmos: quem, de fato, trabalhou com VV no sentido de fazê-la refletir sobre seus textos? Quem trabalhou os textos com o objetivo de que VV mudasse sua relação com a escrita e descobrisse o prazer em escrever?

A dislexia não é dislexia – Parte II

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita, Dislexia

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Texto escrito por BR, uma garotinha de 6 anos que cursava o antigo “pré”. A professora disse que BR não poderia ir para a 1ª série porque não conhecia as letras. 

Não adianta só dizer “isso é certo”, “isso é errado” e atribuir uma doença ao que foge do esperado; escrever é uma atividade complexa e que deve ser analisada tendo em vista tal complexidade. É claro, há crianças e adultos que apresentam uma escrita não compatível com a idade e o número de anos que passaram na escola, mas isso se deve a outras razões e não pode ser visto como um distúrbio ou patologia (veja Escrever: por que muitos não aprenderam?).

Ao invés de diagnosticar como disléxico, deve-se entender o funcionamento da escrita, saber interpretar os “erros” e intervir sobre eles; uma intervenção que vai muito além de dizer ao escrevente “escreva assim” ou “não escreva assim”, isto é, que o leve a refletir/pensar sobre a própria escrita, levantar hipóteses sobre como se escreve, seja uma palavra ou uma frase em relação a outra… o texto como um todo.

A dislexia não é dislexia – Parte I

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita, Dislexia

As escolhas feitas pelo aprendiz da escrita – muitas vezes “erradas” - têm uma via explicativa que se relaciona com as possibilidades do sistema de escrita; além disso, tais escolhas demonstram que o escrevente está aprendendo e refletindo sobre o objeto (a escrita). A escrita da palavra “fugio”, por exemplo, é muito comum quando o aluno já conhece a forma ortográfica de determinadas palavras e sabe que a pronúncia destas é diferente; como muitas palavras que terminam em o são pronunciadas com u (Paulo, limpo, pano, menino, etc.), o aprendiz escreve todas as palavras com o som de u, no final, com a letra o. Por essa razão, os erros que normalmente são chamados de dislexia, quando melhor analisados, não são.

“Dislexia: um bem necessário”

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita, Dislexia

Um bem necessário sim, como diria a minha querida teacher “Maza”, orientadora do mestrado. Certa vez, uma conhecida revista de circulação nacional publicou uma matéria sobre o tema “dislexia”, definida como um “distúrbio ou transtorno de aprendizagem na área da leitura, escrita e soletração” conforme Associação Brasileira de Dislexia. Segundo a fonoaudióloga (também psicopedagoga) consultada pela revista, uma pessoa disléxica pode escrever frases do tipo “O cachoco fugio. A poua voi porcurar, mas não encontorl”, ao invés de “O cachorro fugiu. A dona foi procurar, mas não encontrou”.

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Mas o que se pode dizer sobre tal escrita? Como refletir sobre ela? Tais erros já foram analisados, no âmbito da Lingüística, como típicos do processo de aquisição da escrita e, portanto, não são interpretados como um distúrbio, problema ou doença. Por essa razão, a chamada dislexia é um “bem necessário”.

Leia mais: revista-maringa-ensina-secretaria-municipal-de-educacao-de-maringa.htm

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Ah, Curitiba…
17 abril 2017
Carla Queiroz Pereira: Que bom, Carolina! Aproveite o blog! Beijo grande....
Carolina: AMEI a sua explicação, professora! Farei esse tema para a nossa próxima redação! :) S...
michele: Olá Carla, Li seu artigo sobre as discursivas e concordo com o que você disse, princ...
Isadora Sampaio: Boa tarde professora Carla! Indicaram-me a senhora para fazer recurso de concurso....
Maria Elizabeth dos Santos Conte: Obrigada professora pela dicas excelentes....
Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br