Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

Arquivo da categoria Diagnósticos & Escrita

Para os pais

Este pode ser um material muito útil a professores, fonoaudiólogos, psicólogos, psicopedagogos e médicos. Para uma versão impressa, clique no link abaixo:
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Gripe Suína e terapia de linguagem

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita

Olhar para uma charge como essa e rir parece ser algo tão simples, óbvio nos últimos dias, não é mesmo? Só parece, pois, conforme já dissemos outras vezes aqui, para interpretar uma charge precisamos mobilizar diversos conhecimentos que não estão explícitos no texto (na charge).

Muitas vezes, algo que fazemos com tanta rapidez, como atribuir sentido a essa charge e rir dela, pode se tornar difícil para pessoas que sofreram um AVC – Acidente Vascular Cerebral – (derrame), que tenha comprometido o nível semântico da linguagem, por exemplo (alterações chamadas de afasias).

Por isso, charges podem ser materiais preciosos na avaliação de linguagem de pessoas que sofreram um AVC. Não somente para avaliação, mas também para terapia com afásicos*.

*Em linhas gerais, afásicos são aqueles com alterações de linguagem em decorrência de uma lesão cerebral.

Se você é fonoaudiólogo e trabalha com afásicos, fica aqui a minha sugestão de material a ser utilizado. Além disso, fica também o convite para que você nos conte como foi trabalhar com charges nas sessões terapêuticas.

Como a fonoaudiologia tem atuado em relação à linguagem?

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita, Dislexia

Muitos que visitam o “A Escrita nas Entrelinhas” ainda não sabem que, antes de eu estudar Linguística (fazer o mestrado), minha formação de graduação foi em Fonoaudiologia. Um dia irei contar como se deu minha busca pela Linguística, mas posso adiantar que ela partiu de uma inquietação. Muito me incomodava a maneira como a Fonoaudiologia avaliava (e ainda avalia) e diagnosticava (e ainda diagnostica) os pacientes com alterações de linguagem decorrentes de acidentes vasculares cerebrais (AVC’s), por exemplo, e aqueles com queixas de dificuldades de leitura e escrita, não oriundas de doenças orgânicas. Diante desse incômodo, passei a ler textos escritos por linguistas, graças a Deus.

A Fonoaudiologia tem atuado, ainda, de maneira muito superficial em relação às questões de linguagem: não consegue interpretar os fatos de linguagem; interpreta o “erro”, não raras vezes, como sinal de patologia, atribuindo um diagnóstico – de dislexia, de distúrbios de aprendizagem, de desordem do processamento auditivo etc. – sem saber o que, de fato, está diagnosticando. Como é possível que muitos (não todos) fonoaudiólogos falem em “dificuldades de leitura”, se desconhecem os complexos processos linguísticos envolvidos no ato de ler? Acostumados a ler somente textos produzidos pela área da saúde, aceitam tudo o que é dito, sem buscar na educação e na Linguística explicações plausíveis, resultantes de longos anos de estudos e pesquisas. (Não busquem, talvez, pelo esforço intelectual que as leituras dos textos dessas áreas demandam).

Como podem afirmar “problemas de compreensão” se, para muitos, qualquer não compreensão é sinal de dificuldade do sujeito supostamente avaliado? Se desconhecem, por exemplo, os N fatores que devem ser mobilizados para que a interpretação seja possível? (sobre tais fatores, sugiro ver alguns exemplos no blog). Isso tudo sem contar, ainda, a concepção de cérebro que está implicada nesse tipo de afirmação. Nem vou falar sobre isso agora.

Por que não aprendemos a investigar os fundamentos dos “erros” em vez de considerá-los como indício de problema neurológico? (Leia o post “virtudes no erro”). Por que não aprendemos a trabalhar, quando necessário, sobre os textos daqueles que nos procuram?

Oficina sobre escrita – parte do material utilizado

Os slides aqui apresentados foram disponibilizados durante uma oficina que ministrei no mês de fevereiro deste ano.
Nela os participantes foram instigados a pensar na escrita a partir do sentido do que escrevem, considerando que um texto não é um amontoado de frases dispostas umas após outras. Em uma troca constante entre participantes e professor, a oficina não teve como propósito dizer “isso é certo” ou “isso é errado”, mas sim, identificar as dificuldades daqueles e intervir sobre elas. Nessa intervenção, importou que os participantes refizessem suas hipóteses de escrita, elegendo a melhor forma para dizer/escrever algo. Puderam, assim, perceber que a escrita de bons textos não se restringe aos aspectos gramaticais e/ou ortográficos. obs: os slides representam apenas uma parte do material entregue.

A Escrita: do ensino fundamental à vida profissional

Certamente, as dificuldades que diversos profissionais têm para escrever não tiveram início somente agora, no exercício da profissão. Muitas vezes, pequenas dificuldades observadas nas séries iniciais, próprias de quem está aprendendo a escrever, são arrastadas no tempo… O aluno “passa de ano”, mas o seu texto não passa. E assim vai por todo o ensino médio, superior…

Clique nessa figura para ver o histórico que geralmente encontramos:

Cursos na Editora Segmento

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita

A Editora Segmento oferecerá três cursos no mês de janeiro. Veja os temas:
- Oficina para revisor;
- Análise e planejamento de textos;
- Revisão gramatical avançada.

Clique para ver o anúncio completo:

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Processamento Auditivo: ouvindo outras fontes

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita

O que tem sido entendido por “compreensão” nos textos escritos por fonoaudiólogos, otorrinolaringologistas e neurologistas? Há algo a ser questionado em relação às associações feitas entre Desordem do Processamento Auditivo*e Linguagem (Auditory Processing Disorders and Language)? O que um histórico sobre os testes de processamento auditivo “revelam” sobre sua validade para fins de diagnóstico?

Essas são algumas questões que apresento em um capítulo de um livro ainda não publicado (não sei qual será seu título). Ainda assim, gostaria de compartilhar um pedacinho do texto (quem sabe… dois) com aqueles que têm uma “pulga atrás da orelha” sobre o tema, mas que ainda não tiveram coragem de escrever sobre. Na verdade, gostaria de já publicar as 22 páginas que escrevi, mas não posso, óbvio.

Homens e mulheres de toda a terra são dotados de um patrimônio comum: um mesmo conjunto de estruturas e funções cerebrais (MECACCI, 1987), mas com uma variada organização funcional, conforme as diferentes experiências que vivenciam. A organização funcional do cérebro está, pois, estritamente relacionada aos aspectos culturais e sociais. Aplicando-se esse fato à percepção dos sons e à compreensão do que ouvimos, observa-se que as percepções e compreensões de uma pessoa podem não ser equivalentes às de seu interlocutor, considerando-se que muitos fatores – os sistemas de referência, o contexto, o conhecimento partilhado entre os interlocutores, o conhecimento de mundo, etc. – estão em jogo na tarefa de compreender, conforme alguns exemplos expostos neste capítulo. Em um deles vimos que o enunciado “açúcar mascavo”, dito pela mãe de duas crianças, foi entendido como “açúcar mais caro”, por uma delas, e como “açúcar mascado”, por outra, pois a palavra “mascavo” ainda não faz parte do sistema de referências de tais crianças em processo de aquisição da linguagem. Compreender, portanto, não é decodificar e, durante a audição, sempre haverá a busca pelo sentido. Não sendo a compreensão uma mera decodificação, não separamos, pois, a linguagem da percepção/audição; não separamos as experiências que vivenciamos do que percebemos via audição.

(…)
Toda afirmação que envolve linguagem e cérebro de um sujeito particular requer cuidadosa análise, levando em consideração a complexidade de ambos. A falta de conhecimento sobre o complexo funcionamento da linguagem, bem como sobre a dinâmica da atividade cerebral por parte de profissionais da saúde, pode levar a afirmações equivocadas a respeito das crianças que aprendem, o que traz conseqüências para a vida delas e de seus pais (…).

*Para quem ainda não ouviu falar sobre o assunto, Processamento Auditivo é um tema difundido entre profissionais da área de saúde e educação, e tem sido relacionado à escrita, à leitura etc. De que forma? Alguns testes (de processamento auditivo) são aplicados e, dependendo das respostas recebidas, os sujeitos sob teste recebem o diagnóstico de desordem do processamento auditivo. Tal diagnóstico acaba justificando, não raras vezes, as supostas dificuldades de escrita e/ou compreensão/interpretação. Falando assim parece que é simples… parece que não há muitos problemas com isso… Será?

Vale ressaltar que a escrita do capítulo somente foi possível pelos conhecimentos adquiridos no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, instituição em que cursei o Mestrado na área de Neurolingüística, sob orientação da profª. Maria Irma Hadler Coudry (Maza). Mais uma vez, Maza, obrigada!

Uma informação da autora deste blog

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita

Olá, pessoal! Desculpem-me por não ter postado nada nos últimos dias. Estava de licença médica… cuidando da saúde. Mas hoje mesmo retomarei os posts, ok! Há muitas coisas legais vindo por aí.

Abração. Carla. 

Uma vida inteira convivendo com um diagnóstico equivocado

Sempre achei que eu tinha um problema (uma dislexia ou uma dificuldade para aprender), mas depois que vi os textos de BR (ver Slides postados com o título “A Escrita e seus diagnósticos…”), percebi que escrevia, quando criança, da mesma maneira que ela; eu só precisava de alguém para me mostrar o que acontecia… alguém para me dar uma ajudinha“. (VV, profissional da área de Direito rotulada, quando criança, equivocadamente, como tendo dificuldades para escrever, o que resultou em aversão à escrita e traumas que perduram até os dias de hoje).

Para pensarmos: quem, de fato, trabalhou com VV no sentido de fazê-la refletir sobre seus textos? Quem trabalhou os textos com o objetivo de que VV mudasse sua relação com a escrita e descobrisse o prazer em escrever?

A dislexia não é dislexia – Parte II

por Carla Queiroz Pereira em Diagnósticos & Escrita, Dislexia

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Texto escrito por BR, uma garotinha de 6 anos que cursava o antigo “pré”. A professora disse que BR não poderia ir para a 1ª série porque não conhecia as letras. 

Não adianta só dizer “isso é certo”, “isso é errado” e atribuir uma doença ao que foge do esperado; escrever é uma atividade complexa e que deve ser analisada tendo em vista tal complexidade. É claro, há crianças e adultos que apresentam uma escrita não compatível com a idade e o número de anos que passaram na escola, mas isso se deve a outras razões e não pode ser visto como um distúrbio ou patologia (veja Escrever: por que muitos não aprenderam?).

Ao invés de diagnosticar como disléxico, deve-se entender o funcionamento da escrita, saber interpretar os “erros” e intervir sobre eles; uma intervenção que vai muito além de dizer ao escrevente “escreva assim” ou “não escreva assim”, isto é, que o leve a refletir/pensar sobre a própria escrita, levantar hipóteses sobre como se escreve, seja uma palavra ou uma frase em relação a outra… o texto como um todo.

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Carla Queiroz Pereira: Oi, Randinaldo! Vamos supor que esta charge tenha sido publicada antes das eleiçõ...
Carla Queiroz Pereira, mestre em Linguística/área Neurolinguística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões linguístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as redações, questões discursivas e questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br