Antes de dissertar você precisa interpretar!

dezembro 9th, 2015 por Carla Queiroz Pereira

No concurso para o cargo de AJAA, do TRT-PR, ocorrido no dia 29.11.15, a banca examinadora não deixou explícito, em uma frase, o tema da redação; exigindo um conhecimento ainda mais amplo e refinado do candidato, apresentou um textinho que deveria ser, primeiramente, interpretado. Uma adequada interpretação era elementar para o reconhecimento/a identificação do tema por parte do candidato. Sem isso a redação já começaria comprometida!!! Portanto, vamos a alguns comentários a respeito do referido tema!

Epicuro havia percebido que as leis não educam: que não eram feitas para serem propriamente obedecidas, mas para garantir, sobretudo, a possibilidade de punição. Ele se deu conta, por um lado, de que a educação e as necessidades básicas do ser humano deveriam ser gerenciadas pela pólis (Estado); por outro lado, viu que era preciso, de algum modo, isolar para educar, porém, sem reclusão, porque a virtude do caráter político não se reduz, afinal, a um modelo ou teoria, tampouco ao recinto de uma instituição ou de uma pólis. 

(Adaptado de: SPINELLI, Miguel. Epicuro e as bases do epicurismo. São Paulo, Paulus, 2013, p. 8)

Começo por três conhecimentos básicos, fundamentais para a leitura e interpretação de qualquer texto:

1. UM TEXTO NÃO É UMA MERA SOMA OU SEQUÊNCIA DE FRASES ISOLADAS; ou seja, há sempre uma relação de sentido entre um período e outro, entre um parágrafo e outro.

2. O SENTIDO DE UMA PARTE DEPENDE DO SENTIDO DAS DEMAIS COM QUE SE RELACIONA, O QUE CONFERE COESÃO AO TEXTO;

3. UM TEXTO SEMPRE GUARDA UMA RELAÇÃO COM OUTROS TEXTOS JÁ EXISTENTES; por essa razão, leitor, interpretar um texto é também trazer para a leitura deste os conhecimentos prévios sobre outros textos já lidos.

Esses conceitos ficarão mais claros à medida que comentarmos o textinho da prova. Vamos lá!

Epicuro havia percebido que as leis não educam: que não eram feitas para serem propriamente obedecidas, mas para garantir, sobretudo, a possibilidade de punição.

Esse primeiro período é muito importante e imprescindível para a compreensão dos seguintes. Note: há uma afirmação inicial sobre as leis – “as leis não educam” -, inserção de dois-pontos e o detalhamento dessa informação inicial! Nesse trecho já levantamos a seguinte pergunta: Para que a lei serve ou não serve? A lei não serve para educar (observe que o texto não está falando de educação formal, da escola, mas de comportamento em sociedade, procedimento, moralidade). As leis “não eram feitas para serem propriamente obedecidas”. A obediência à lei, portanto, não vem pela imposição da própria lei, não vem propriamente pelo que nela está escrito; aplicando-se isso, vemos, por exemplo, que não é pelo fato de a lei dizer ‘X’ que as pessoas obedecem e praticam o que nela está escrito. Essas informações são suficientes para o candidato escrever pelo menos um parágrafo de desenvolvimento. A banca não explicará, obviamente, por que as leis não educam ou por que a obediência não vem das leis. Isso cabe a você, escritor.

As leis, conforme escrito no período, servem para a “possibilidade de punição”, ou seja, se não obedecer à lei, poderá haver punição por isso; lembremo-nos, por exemplo, das punições na esfera penal ou administrativa, candidato.

Ele se deu conta, por um lado, de que a educação e as necessidades básicas do ser humano deveriam ser gerenciadas pela pólis (Estado); (…).

O autor do texto, nesse segundo período, continua falando de algo que já estava no primeiro: a educação. A educação deveria ser gerenciada pelo Estado (não pela lei, que não educa). A propósito, o que significa dizer que a educação deve ser gerenciada pelo Estado? Quais são essas necessidades básicas? Se o que está escrito na lei não é o que provoca a obediência, quais fatores, então, nos leva a cumprir a lei (ou a não descumpri-la)? Pense nisso, candidato. Se a obediência não vem pelas leis, mas pela educação, explique isso. Por que as leis não são aptas a educar e a fazer obedecer? Na sua opinião, o que leva o homem à obediência às leis? Tudo isso pode ser discutido no segundo parágrafo do desenvolvimento.

(…) por outro lado, viu que era preciso, de algum modo, isolar para educar, porém, sem reclusão, porque a virtude do caráter político não se reduz, afinal, a um modelo ou teoria, tampouco ao recinto de uma instituição ou de uma pólis. 

Não podemos ler esse trecho nos esquecendo dos anteriores! Embora não saibamos, pelo texto, por qual motivo é preciso ‘isolar para educar’, nem tampouco ter certeza do que seja ‘a virtude do caráter político’, a ênfase do autor está na afirmação de que a educação não vem pela reclusão; não se educa, não se restaura alguém, não se leva alguém à obediência às leis pela reclusão (prisão), pela punição.

Portanto, leitor/escritor, posso afirmar que este tema de prova foi muito bom e interessante. Mãos à obra e força na produção textual! Você pode escrever, por exemplo, sobre as leis como não educadoras (discuta também o verdadeiro papel das leis) e os reais fatores que levam as pessoas à obediência às leis.

Desta prova, candidato, fica mais um aprendizado: ainda que a banca não explicite o tema, ele existe e pode ser depreendido do textinho apresentado!