Diagnósticos em aprendizagem: afinal, quem está doente?

maio 21st, 2014 por Carla Queiroz Pereira

Como muitos sabem, já atuei como fonoaudióloga e tive a alegria de estudar Neurolinguística com uma das professoras mais respeitadas do Brasil no que diz respeito às relações entre cérebro e linguagem, Maria Irma Hadler Coudry (Maza), livre-docente do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Na época em que estive nessa instituição, pudemos, eu e outras colegas pesquisadoras, acompanhar, no Centro de Convivência de Linguagens (“CCazinho”), sob a orientação da professora Maza, muitas crianças e adolescentes que receberam algum diagnóstico associado à aprendizagem escolar – dislexia, TDAH, Desordem do Processamento Auditivo, distúrbio da Consciência Fonológica, entre outros. Trabalhando com tais crianças e adolescentes, constatávamos que, na maior parte dos casos, não tinham qualquer dificuldade insuperável ou de origem na própria criança.

Por que volto a falar sobre isso aqui? Porque conheci mais uma mãe em sofrimento por estes dias… muito angustiada…

E pude escrever para ela o que escrevo a vocês também, leitores deste blog:

“Sobre os diagnósticos relacionados à aprendizagem, vemos que, não raras vezes, estes “caem como uma luva” para problemas da escola (não de todas, claro, mas da maioria, sem dúvida), que ainda tem uma visão estreita de cérebro, linguagem e aprendizagem. As atividades, muitas vezes, são descontextualizadas; as avaliações são predominantemente conteudistas, sem privilegiar o raciocínio, a reflexão, a criatividade etc. O resultado disso? Muitas vezes, alunos que, por estarem fora desse reducionismo (e não se enquadrarem nesse modelo tradicional de ensino) são rotulados de “problemáticos”, “portadores de alguma dificuldade” etc. E os médicos, fonoaudiólogos, psicólogos e psicopedagogos, desconhecendo esses processos (neuro)linguístico-cognitivos e, pior, testando por meio de exames TOTALMENTE descontextualizados e sem qualquer sentido para a criança ou adolescente, patologizam o invisível, criam uma doença, doença esta, obviamente, que tem origem na criança, dirão muitos “educadores”, terapeutas e doutores”.

A questão é: afinal, quem está doente?

Sobre este assunto, sugiro a leitura das seguintes publicações:

1. Livro “A institucionalização invisível: crianças que não aprendem na escola”, de Maria aparecida Affonso Moysés;

2. Livro “Novas capturas, antigos diagnósticos na era dos transtornos”, organizado por Cecília Azevedo Lima Collares, Maria Aparecida Affonso Moysés e Mônica Ribeiro. Segue o link para você ver os títulos e alguns comentários sobre as obras: http://www.mercado-de-letras.com.br/autor.php?codid=31

3. Livro “Caminhos da Neurolinguística Discursiva: teorização e práticas com a linguagem”: – http://www.mercado-de-letras.com.br/livro-mway.php?codid=272 (escrevi dois capítulos; em um deles faço uma análise crítica da chamada Desordem do Processamento Auditivo; no outro, a fonoaudióloga Francine Marson Costa e eu escrevemos uma crítica sobre um teste de Consciência Fonológica).