Memória e interpretação de charges

março 24th, 2011 por Carla Queiroz Pereira

Uma estudante, visitante do blog, pede que eu a auxilie na interpretação de uma charge que sua professora havia passado para a turma da escola analisar e interpretar. Embora a professora tenha proposto tal atividade recentemente, a charge em questão foi criada e publicada em 2008, ou seja, há 3 anos. Qual a implicação disso para o fim desejado pela atividade?  

O professor, ao trabalhar com as charges na sala de aula, precisa verificar quando a charge foi publicada, pois a mobilização do conhecimento exterior à charge e sua interpretação também dependerão da nossa memória a respeito das notícias veiculadas na imprensa numa determinada época. Não podemos apresentar aos alunos uma charge cuja interpretação depende de um conhecimento sobre uma notícia que pode não mais estar em nossas memórias. A charge que segue (Fonte: Gazeta Mercantil-SP), por exemplo, foi publicada dia 24 de março de 2011, dia em que, por 6 votos a 5, a decisão do Supremo Tribunal Federal anula os efeitos da Lei Ficha Limpa para as eleições de 2010. Será que daqui a alguns anos poderá ser interpretada?

Apresentar em 2011 uma charge criada e publicada em 2008, sem tecer explicações prévias que permitiram a interpretação, é supor que o sentido desse tipo de texto se encerra nele mesmo, o que não é verdade.  Uma apresentação assim realizada pode evidenciar, por um lado, a necessidade de professores conhecerem a complexidade envolvida na interpretação dos textos; por outro, pode gerar alunos frustrados por pensarem que não são capazes ou que têm dificuldades de interpretar.

Há alguns outros pontos importantes a serem considerados pelos professores quando da utilização de charges em sala de aula:

- O professor deve levar os alunos a refletirem sobre a construção do sentido dos textos. Como mobilizamos os sentidos nos textos? A partir de quais fatores? Será que os sentidos estão somente nos textos ou trazemos um conhecimento exterior aos textos para que estes sejam interpretados?

- A charge é um tipo de texto cuja interpretação depende, geralmente, de um conhecimento exterior ao texto (à charge), tal como vemos nos exemplos apresentados neste blog;

- O professor pode aproveitar as charges para expor diversos conhecimentos relacionados à economia, política, biologia etc.;

- Os alunos devem ser instigados a pensar… pensar… raciocinar… refazer suas hipóteses etc.

Há outros pontos já abordados no blog! Aproveitem!