Interpretação de tirinhas – Calvin !

fevereiro 21st, 2011 por Carla Queiroz Pereira

 

Fiz um convite à Elisângela Bassi, amiga, ex-colega do mestrado/Unicamp e profissional da área de Linguística e Fonoaudiologia. Queria muito que ela escrevesse no ”A Escrita nas Entrelinhas”. Ela aceitou! Que bom!!! Segue sua preciosa contribuição a todos aqueles que buscam aperfeiçoar a leitura e interpretação dos textos.   

 

Agradeço a Carla – querida e competente profissional – pelo convite para postar um texto interpretativo em seu blog.

Em razão dos últimos concursos, vestibulares e provas do Enem, escolhi interpretar uma tirinha em quadrinhos. A leitura interpretativa deste tipo de texto, assim como de charges, requer uma construção de sentidos que, para que ocorra, é necessário mobilizar alguns processos de significação, como a percepção da atualidade, a representação do mundo, a observação dos detalhes visuais e/ou linguísticos, a transformação de linguagem conotativa (sentido mais usual) em denotativa (sentido amplificado pelo contexto, pelos aspetos sócio-culturais etc). Em suma, usa-se o conhecimento da realidade e de processos linguísticos para ‘inverter’ ou ‘subverter’ produzindo, assim, sentidos alternativos a partir de situações extremas. 

Clique sobre a tirinha para melhor visualizá-la.

  

O objetivo do Calvin era vender ao seu pai um desenho de sua autoria pela exorbitante quantia de 500 dólares. Ele optou por valorizar o desenho, mostrando todas as habilidades conquistadas para conseguir produzi-lo. O pai, no último quadrinho, reconhece o empenho do filho, utilizando-se de um conector de concessão (‘Ainda assim’), valorizando a importância de tudo aquilo. Contudo, afirma que não pagaria o valor pedido (como se dissesse: “sim, filho, foi um esforço absurdo, mas não vou pagar por isso!”).

A graça está no fato de Calvin elaborar um discurso “maduro” em relação ao seu desenvolvimento cognitivo e motor nos dois primeiros quadrinhos e, somente depois, ficar claro para nós, leitores, que toda a força argumentativa foi em prol da cobrança pelo desenho que ele mesmo fez. Em outras palavras, o personagem empenha-se na construção de um raciocínio em prol de uma finalidade absurda – o que nos faz sorrir no último quadrinho, já que é somente nele que conseguimos ‘completar’ o sentido. Claro, se você conhece os quadrinhos do Calvin, sabe que ele tem apenas 6 anos, o que torna tudo ainda mais hilário, mas a falta deste conhecimento não prejudica em nada a interpretação textual.  

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elisbassi@gmail.com