Dificuldade de compreensão??????

agosto 27th, 2009 por Carla Queiroz Pereira

Receite a lei anti-fumo”. Hã? “Receite” a lei? Como assim, receite a lei? Essas foram as curtas perguntas que vieram à minha mente quando ouvi o maquinista de um dos vagões do metrô de SP. E ele completou o enunciado, dizendo: “Não fume nas estações do metrô”. Após o complemento percebi que eu havia me enganado quanto ao que ouvi. Interessante: somente consegui refazer minha hipótese sobre o que havia ouvido – “respeite a lei anti-fumo”, e não “receite a lei anti-fumo” -, após o maquinista ter completado o que começou a dizer. Pelo sentido do enunciado completado, pelo contexto da situação em que eu estava inserida (o fato de estar dentro de uma estação do metrô, o fato de saber sobre a proibição do fumo em ambientes fechados, o fato de conhecer os males que o cigarro causa etc.), pude concluir que havia me enganado a respeito da palavra “receite”. Percebi que o maquinista não havia falado “receite”, mas “respeite“.

Situações como essa, de não compreensão seguida de reformulação, são comuns em nosso dia-a-dia. Gostaria de ressaltar que isso não tem nada de patológico, mas nos mostra que o ouvir e o compreender são duas atividades inter-relacionadas e não isoladas.

Na Fonoaudiologia, é comum observarmos o uso de testes com frases ou palavras sem sentido. Quando investigamos os procedimentos de testagem do chamado Processamento Auditivo (PA), por exemplo, observamos que os pacientes são inseridos em uma cabina acústica, com tarefas que não fazem sentido e recebidas através de um fone; não existe, assim, uma situação significativa para ouvir o que se ouve, bem como para o exercício da linguagem, ou seja, não existe um contexto, não existe um interlocutor e o que se ouve não faz sentido.

Vale ressaltar que há afirmação na literatura sobre Processamento Auditivo de que os testes não avaliam a linguagem, porém, em relatórios clínicos de avaliação do PA, afirma-se, por exemplo, que o resultado do teste (alterado) pode ser um fator gerador de dificuldades de compreensão, de escrita, entre outras (vejam, portanto, que a relação foi estabelecida).

 Por desconsiderar a estreita relação entre audição & sentido/compreensão (afirmação que faço tendo em vista os “N” aspectos envolvidos no compreender), qual será a real validade dos testes de Processamento Auditivo para fins de avaliação e diagnóstico?

Pense nisso, leitor! Vamos compreender, primeiro, como a linguagem funciona antes de dizermos que alguém tem dificuldades para algo!