Comentário de uma charge

maio 18th, 2009 por Carla Queiroz Pereira

Olá, pessoal!

Há algum tempo postei esta charge. Eis aqui meus comentários enviados àqueles que se propuseram a explicar a interpretação dada por uma profissional de Comunicação Social, isto é, de que a mulher ilustrada na charge não sabia o significado da palavra penhor e, por isso, levou o arroz para ser penhorado:

Assim como as piadas, as charges são textos humorísticos que requerem a mobilização de conhecimentos prévios para que seja possível a interpretação. Que conhecimentos prévios são esses? Conhecimentos de fatos que circulam na sociedade, de questões culturais e ideológicas etc. Um exemplo: na piada “feliz foi Adão que não teve sogra”, NÃO HÁ COMO INTERPRETÁ-LA E RIR DELA sem o conhecimento de quem foi Adão, na história (o primeiro homem), de quem foi Eva (a primeira mulher), de que sogra é a mãe da mulher ou do homem com quem se é casado e, ainda, de que ter sogra, em nossa cultura, é algo ruim. UFA!!!
Esse simples exemplo (que não é um texto simples) nos mostra que a linguagem não é um código. Na piada, os sentidos foram veiculados, mesmo sem estarem codificados, entende? Conceber a língua como um código é assumir que o conteúdo semântico está integralmente explicitado por estruturas sintáticas (Coudry & Possenti, 1993), o que não é verdade. Mas isso é um papo para depois, ok!? Continuemos na charge…

Ao lermos/vermos a charge, deveríamos relacioná-la aos seguintes conhecimentos: a alta no preço do arroz (amplamente divulgada na mídia); o significado da palavra penhor e o funcionamento da penhora de bens.
Se não soubermos sobre a alta do arroz iremos pensar que a resposta da profissional de Comunicação Social está correta (de que a mulher não sabia o significado da palavra penhor e, por isso, levou o arroz para ser penhorado). O oferecimento do arroz para ser penhorado tem relação com a alta mundial de seu preço, não com o que conhecemos sobre o tipo de bens que comumente as pessoas penhoram. Só podemos interpretar a charge se considerarmos esse conhecimento veiculado. Se não tivéssemos a notícia da alta do preço do arroz, ele não seria, na charge, um “bem” digno de ser oferecido como penhor; aliás, essa charge não teria razão de ser. Mas cuidado: não é por causa da alta do arroz, por um lado, e da ilustração da charge (de uma mulher que leva o arroz para ser penhorado), por outro, que agora o arroz se tornará um bem digno de ser penhorado. Isso seria uma extrapolação. A ilustração está lá para ressaltar a alta do preço do arroz.

Além da informação sobre a alta no preço do arroz, também deveríamos entender o sentido da palavra “penhor”. Quando alguém oferecia a um banco um determinado bem como penhor, tal bem passava a ser a garantia de pagamento da dívida feita para com o banco, isto é, o banco só devolvia o bem ao cliente mediante pagamento da dívida. Caso contrário, o banco podia ficar com o bem do cliente. Detalhe: o valor do bem oferecido correspondia, geralmente, a 130% do valor da dívida. No caso da charge, o oferecimento do arroz como “bem” deve ser visto, não de maneira isolada, mas associado ao aumento significativo no preço desse alimento, conforme veiculado na imprensa.

Exemplo de uma notícia a respeito do tema:

http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL425699-9356,00.html

Vai uma dica de um site de charges: http://www.chargeonline.com.br/
Tente ver cada uma e explicar o motivo do seu riso. Se conseguir rir e explicar o motivo é porque você entendeu.

Obs: se quiser, deixe um comentário no blog sobre esta resposta.

Beijos. Carla.