Hummm… não entendi nada…

março 30th, 2009 por Carla Queiroz Pereira

A necessidade de considerarmos o outro para quem escrevemos

Podemos entender essa conversa?

C: Você trouxe as coisas que pedi?
J: As que estavam lá em cima?
C: Não, as que deixei no quintal.
J: Ah, vou buscá-las.

(obs: as letras maiúsculas representam as iniciais dos nomes
das pessoas envolvidas na interação)

Embora esse texto oral faça pouco sentido para um estranho, os interlocutores se entendem perfeitamente, complementando as lacunas através de inferências baseadas em seu conhecimento partilhado (Koch, 2004). “As coisas” são conhecidas de ambos, C e J; “lá em cima” faz referência a algum lugar, também de conhecimento dos interlocutores, o que dispensa certas explicações por parte deles. Dessa forma, a depender de quem é o nosso interlocutor escreveremos mais ou menos, daremos mais ou menos detalhes.

Na frase João entrou no restaurante, comeu uma feijoada e voltou correndo para o escritório, por exemplo, o ouvinte/leitor ativa na sua memória os conhecimentos relativos ao episódio “ir a um restaurante”. Assim, não é preciso dizer que lá havia mesas e cadeiras; que João sentou-se e foi atendido pelo garçom; que o garçom trouxe a feijoada; que João pagou a conta etc. Tudo isso é recuperado através de inferências e considerado como “informação normal”, que, por isso, não precisa ser explicitada (Koch, op. cit.). É claro, esse é um exemplo bem simples, afinal, todos nós temos a prática de ir a um restaurante. Porém, conforme observamos nos exemplos expostos nos slides, certos textos produzidos no interior das empresas geram mal-entendidos, problemas de relacionamento, alteração na dinâmica do trabalho, perda de negócios, comprometimento da imagem etc. Tudo isso por desconsideração de quem é o interlocutor.

Considerar quem é o nosso interlocutor significa, por exemplo, sabermos sua profissão, cargo ou função que ocupa na empresa; significa termos em mente o tipo de relacionamento que temos com ele e, por fim, sabermos quanto conhecimento ele tem a respeito do assunto sobre o qual escrevemos.

A noção de interlocução supõe, ainda, a existência de uma situação, a situação de comunicação. Um enunciado ganha sentido somente no cruzamento de um locutor com um interlocutor numa situação específica. Assim, os escreventes fazem os devidos ajustes em seus textos dependendo de quem são os interlocutores, de onde estão e do fim visado (situação de comunicação).

Portanto, pessoal, é arriscado escrever um texto sem pensar nos possíveis sentidos que o nosso interlocutor pode atribuir (ou não) ao que escrevemos. Muitas vezes, por escrevermos de maneira descuidada, sem uma revisão, sem pensar no sentido daquilo que escrevemos ou no sentido que nossas palavras podem ter ao serem lidas por uma ou outra pessoa etc., geramos problemas para o local em que trabalhamos, para as pessoas e para nós mesmos. Não raras vezes ouvi relatos de profissionais que, em função do texto que escreveram, quase foram parar no departamento de RH da empresa em que trabalhavam. Lembro-me de um profissional da área de computação de um grande Banco, que, ao escrever e enviar um e-mail de duas linhas ao gestor da área, foi interpretado como tendo revelado uma informação sigilosa, o que ameaçou sua permanência no emprego.

Fomos acostumados a pensar que, para escrever um bom texto, é necessário decorar regras gramaticais; se um texto não tem erros gramaticais e/ou ortográficos, já estamos escrevendo bem. É um engano pensar assim, afinal, há textos que, apesar de não terem qualquer erro gramatical, são ruins em termos de sentido… de relações de sentido entre uma parte e outra, de escolhas lexicais (vocabulário adequado à situação), seleção e organização das informações, argumentação etc.

Finalizo esse texto com as palavras de Bagno (2003) a respeito da aprendizagem da leitura e escrita:

“Estruturas textuais características da língua escrita mais monitorada só podem ser apreendidas e aprendidas se a pessoa tiver contato com elas, e este contato se faz por meio da leitura e da escrita. Por isso, não adianta entupir a cabeça das pessoas com regras, exceções, nomenclaturas e definições. Não é assim que alguém vai aprender a ler e a escrever. Isso não é ‘ensinar português’, é simplesmente decorar a gramática normativa, e há muito tempo os linguistas* e educadores vêm demonstrando a inutilidade dessa prática secular. Só se aprende a ler e a escrever, por mais incrível que pareça, lendo e escrevendo. A ideia* de que a boa leitura e a boa produção de textos depende do conhecimento pormenorizado da gramática normativa é uma falácia que precisa ser combatida”.

Referências Bibliográficas:
Bagno, M. A norma oculta: língua & poder na sociedade brasileira. São Paulo: Parábola, 2003.
Koch, I. G. V. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 1992.