Como a fonoaudiologia tem atuado em relação à linguagem?

março 7th, 2009 por Carla Queiroz Pereira

Muitos que visitam o “A Escrita nas Entrelinhas” ainda não sabem que, antes de eu estudar Linguística (fazer o mestrado), minha formação de graduação foi em Fonoaudiologia. Um dia irei contar como se deu minha busca pela Linguística, mas posso adiantar que ela partiu de uma inquietação. Muito me incomodava a maneira como a Fonoaudiologia avaliava (e ainda avalia) e diagnosticava (e ainda diagnostica) os pacientes com alterações de linguagem decorrentes de acidentes vasculares cerebrais (AVC’s), por exemplo, e aqueles com queixas de dificuldades de leitura e escrita, não oriundas de doenças orgânicas. Diante desse incômodo, passei a ler textos escritos por linguistas, graças a Deus.

A Fonoaudiologia tem atuado, ainda, de maneira muito superficial em relação às questões de linguagem: não consegue interpretar os fatos de linguagem; interpreta o “erro”, não raras vezes, como sinal de patologia, atribuindo um diagnóstico – de dislexia, de distúrbios de aprendizagem, de desordem do processamento auditivo etc. – sem saber o que, de fato, está diagnosticando. Como é possível que muitos (não todos) fonoaudiólogos falem em “dificuldades de leitura”, se desconhecem os complexos processos linguísticos envolvidos no ato de ler? Acostumados a ler somente textos produzidos pela área da saúde, aceitam tudo o que é dito, sem buscar na educação e na Linguística explicações plausíveis, resultantes de longos anos de estudos e pesquisas. (Não busquem, talvez, pelo esforço intelectual que as leituras dos textos dessas áreas demandam).

Como podem afirmar “problemas de compreensão” se, para muitos, qualquer não compreensão é sinal de dificuldade do sujeito supostamente avaliado? Se desconhecem, por exemplo, os N fatores que devem ser mobilizados para que a interpretação seja possível? (sobre tais fatores, sugiro ver alguns exemplos no blog). Isso tudo sem contar, ainda, a concepção de cérebro que está implicada nesse tipo de afirmação. Nem vou falar sobre isso agora.

Por que não aprendemos a investigar os fundamentos dos “erros” em vez de considerá-los como indício de problema neurológico? (Leia o post “virtudes no erro”). Por que não aprendemos a trabalhar, quando necessário, sobre os textos daqueles que nos procuram?