“Virtudes no erro”

fevereiro 17th, 2009 por Carla Queiroz Pereira

Esse post é para quem se interessa por temas como “dislexia”, “erros de escrita”, “gramática”, “ortografia”, “diagnósticos de aprendizagem” etc. É muuuuuiiiiito bom!
Os erros nunca mais serão os mesmos para você!

Virtudes no erro – Sírio Possenti

(texto publicado no site http://terramagazine.terra.com.br)

Bisbilhotando comentários de leitores no blog do Nassif, encontrei a grafia “medilcridade” para “mediocridade” e achei que era um bom tema. A conexão imediata foi com o Alvará redigido por Gaspar de Seixas, em 1571, que o fez por ordem de Jorge da Costa (Iorge da Costa, está lá), liberando a edição de Os Lusíadas, muito instrutivo e até divertido para quem queira fazer observações históricas sobre escrita. A conexão foi imediata porque lembrei, em especial, as duas grafias imprimir e emprimir, sem contar, por exemplo, aja por haja, diãte por diante, declarão por declaram etc., “erros” que qualquer escolar pode cometer – e comete – hoje.

O cidadão comum escolarizado – mas, especialmente, um desses plantonistas da língua, que, na verdade, mal a conhecem, não por serem obtusos, mas por usarem instrumentos inadequados de análise – imaginará que esse comentador de blogs deveria estudar um pouco, para deixar de fazer mal à língua pátria. Mas o leitor mais curioso veria aí um indício, um fato que revela alguma coisa interessante sobre nossa língua. Afinal, o internauta certamente quis escrever direito, fazer boa figura, e, se errou, o erro deve ter uma explicação.

Vamos a ela: sabe-se que as vogais /e/ e /o/ sofrem um processo de alçamento em contextos átonos, tanto finais quanto pré-tônicos – por isso muita gente diz mininu, curuja e patu, porque as vogais em negrito são átonas, mas não diz cuco (e sim coco) nem cocú (e sim cocô), nem prito e voci (e sim preto e você) etc., porque agora as vogais destacadas são tônicas. Para resumir, os sons representados pelas letras (no caso, pelos fonemas) /e/ e /o/ “transformam-se” em i e u em contextos átonos, na fala da maioria dos brasileiros. Seguindo essa regra, nosso leitor provavelmente diria mediucridade, com u, embora a grafia legal seja mediocridade, com o.

Sabe-se também – é só ouvir – que o /l/ de final de sílaba (e não só de final de palavra), vocaliza-se (transforma-se em u) na fala da maioria dos brasileiros, que dizem auto para alto e braziu para Brasil. Daí muita gente nunca saber se escreve mau ou mal, alto ou auto ou se Blumenau termina com /u/ ou com /l/.
Considerados esses fatos básicos, a escrita de nosso amigo fica explicada: digamos que ele teve que escolher entre /o/ e /u/ e escolheu /u/; depois, entre /u/ e /l/, e escolheu /l/. Um azarado em dobro, para quem a primeira lei de Murphy não só funcionou como deu um bis. Mas não é um erro sem fundamento, um indício de burrice ou de problema neurológico. Provavelmente, indica o contrário. Ele seria um mau (não um mal…) revisor, talvez, mas não deixa de ser um sujeito com boa capacidade perceptiva e de produzir intuitivamente uma análise até razoável, embora errada, de forças que atuam sobre nossa língua, útil para compreender as variações – e, quem sabe, as mudanças – a que está submetido o sistema fonológico do português. Diria que esse tipo de erro é bem menos grave do que o cometido diariamente por quem diz que coisas assim são simplesmente o fim da picada.
A ocasião é boa para uma palavra sobre os “erros” de grafia. Primeiro, deve-se levar em conta que a ortografia não segue propriamente regras da língua, embora as considere de diversas formas, algumas até interessantes; acertar ortografia é seguir uma lei, a de no. 5756, de 18.12.71, para ser mais preciso. Por enquanto, porque há uma reforma em curso. Segundo: a ortografia tem um alto valor simbólico, mas é péssima medida de competência lingüística, até mesmo da escrita. E eu acho que seria bom se mudássemos de símbolo, porque isso nos permitiria avaliar melhor se as pessoas são mais ou menos instruídas, mais ou menos alfabetizadas, ou letradas, como agora se diz.
Por que a relação com o Alvará? Por duas razões, pelo menos: a) um levantamento das grafias que teriam que ser alteradas para atualizar o documento mostra que se trata praticamente dos mesmos casos que um professor corrigiria nos textos de seus alunos, em especial nos primeiros anos da escola. Ora, se são os mesmos, então não se trata simplesmente de um problema dos alunos hoje ou de Gaspar de Seixas no século XVI; b) fica muito claro que se trata de uma questão de lei: em 1571, não havia lei ortográfica, e as pessoas que escreviam seguiam mais ou menos seu ouvido, o que resultava tanto em simples “erros” quanto em grafias variáveis da mesma palavra até no mesmo texto – caso de imprimir e de emprimir; hoje há uma lei mas, havendo também uma razoável variedade de pronúncias e, em conseqüência, uma grande discrepância entre a produção falada dos segmentos e sua grafia definida em lei, a variedade da escrita é um resultado provável. Que decorre até mesmo da vontade de acertar.
Assim, não deveríamos nos espantar com casos como resouveu, resolvel, resouvel etc., grafias “alternativas” para resolveu. Observe-se que as variações estão bem localizadas, isto é, ocorrem apenas em certos segmentos e em posições determinadas. Seria bom que compreendêssemos do que se trata (atenção, nobres leitores: não estou defendendo as grafias alternativas). Na verdade, os alunos, e os outros cidadãos que escrevem, só erram – segundo a lei – nos lugares exatos em que a língua permite que errem. Todos os erros são previsíveis quando se conhece um pouco das pronúncias locais. Quem não compreender isso certamente estará bastante perdido em sua tarefa de professor, na escola, e de avaliador e crítico, na mídia ou na sociedade.
PS – O que se disse na coluna passada sobre a grafia “a zelite” pode ser quase integralmente repetido a respeito da solução “dimenor”, que apareceu diversas vezes na coluna de Jânio de Freitas na Folha de 11/02/2007. Claro, com a exclusão de todas as referências ou alusões às questões humorísticas.

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Lingüística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua e de Os limites do discurso.

Retirado de:
Sabe-se também – é só ouvir – que o /l/ de final de sílaba (e não só de final de palavra), vocaliza-se (transforma-se em u) na fala da maioria dos brasileiros, que dizem auto para alto e braziu para Brasil. Daí muita gente nunca saber se escreve mau ou mal, alto ou auto ou se Blumenau termina com /u/ ou com /l/.
Considerados esses fatos básicos, a escrita de nosso amigo fica explicada: digamos que ele teve que escolher entre /o/ e /u/ e escolheu /u/; depois, entre /u/ e /l/, e escolheu /l/. Um azarado em dobro, para quem a primeira lei de Murphy não só funcionou como deu um bis. Mas não é um erro sem fundamento, um indício de burrice ou de problema neurológico. Provavelmente, indica o contrário. Ele seria um mau (não um mal…) revisor, talvez, mas não deixa de ser um sujeito com boa capacidade perceptiva e de produzir intuitivamente uma análise até razoável, embora errada, de forças que atuam sobre nossa língua, útil para compreender as variações – e, quem sabe, as mudanças – a que está submetido o sistema fonológico do português. Diria que esse tipo de erro é bem menos grave do que o cometido diariamente por quem diz que coisas assim são simplesmente o fim da picada.
A ocasião é boa para uma palavra sobre os “erros” de grafia. Primeiro, deve-se levar em conta que a ortografia não segue propriamente regras da língua, embora as considere de diversas formas, algumas até interessantes; acertar ortografia é seguir uma lei, a de no. 5756, de 18.12.71, para ser mais preciso. Por enquanto, porque há uma reforma em curso. Segundo: a ortografia tem um alto valor simbólico, mas é péssima medida de competência lingüística, até mesmo da escrita. E eu acho que seria bom se mudássemos de símbolo, porque isso nos permitiria avaliar melhor se as pessoas são mais ou menos instruídas, mais ou menos alfabetizadas, ou letradas, como agora se diz.
Por que a relação com o Alvará? Por duas razões, pelo menos: a) um levantamento das grafias que teriam que ser alteradas para atualizar o documento mostra que se trata praticamente dos mesmos casos que um professor corrigiria nos textos de seus alunos, em especial nos primeiros anos da escola. Ora, se são os mesmos, então não se trata simplesmente de um problema dos alunos hoje ou de Gaspar de Seixas no século XVI; b) fica muito claro que se trata de uma questão de lei: em 1571, não havia lei ortográfica, e as pessoas que escreviam seguiam mais ou menos seu ouvido, o que resultava tanto em simples “erros” quanto em grafias variáveis da mesma palavra até no mesmo texto – caso de imprimir e de emprimir; hoje há uma lei mas, havendo também uma razoável variedade de pronúncias e, em conseqüência, uma grande discrepância entre a produção falada dos segmentos e sua grafia definida em lei, a variedade da escrita é um resultado provável. Que decorre até mesmo da vontade de acertar.
Assim, não deveríamos nos espantar com casos como resouveu, resolvel, resouvel etc., grafias “alternativas” para resolveu. Observe-se que as variações estão bem localizadas, isto é, ocorrem apenas em certos segmentos e em posições determinadas. Seria bom que compreendêssemos do que se trata (atenção, nobres leitores: não estou defendendo as grafias alternativas). Na verdade, os alunos, e os outros cidadãos que escrevem, só erram – segundo a lei – nos lugares exatos em que a língua permite que errem. Todos os erros são previsíveis quando se conhece um pouco das pronúncias locais. Quem não compreender isso certamente estará bastante perdido em sua tarefa de professor, na escola, e de avaliador e crítico, na mídia ou na sociedade.
PS – O que se disse na coluna passada sobre a grafia “a zelite” pode ser quase integralmente repetido a respeito da solução “dimenor”, que apareceu diversas vezes na coluna de Jânio de Freitas na Folha de 11/02/2007. Claro, com a exclusão de todas as referências ou alusões às questões humorísticas.

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Lingüística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua e de Os limites do discurso.

Retirado de:
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1412078-EI8425,00-Virtudes+no+erro.html
/interna/0,,OI1412078-EI8425,00-Virtudes+no+erro.html