Processamento Auditivo: ouvindo outras fontes

dezembro 5th, 2008 por Carla Queiroz Pereira

O que tem sido entendido por “compreensão” nos textos escritos por fonoaudiólogos, otorrinolaringologistas e neurologistas? Há algo a ser questionado em relação às associações feitas entre Desordem do Processamento Auditivo*e Linguagem (Auditory Processing Disorders and Language)? O que um histórico sobre os testes de processamento auditivo “revelam” sobre sua validade para fins de diagnóstico?

Essas são algumas questões que apresento em um capítulo de um livro ainda não publicado (não sei qual será seu título). Ainda assim, gostaria de compartilhar um pedacinho do texto (quem sabe… dois) com aqueles que têm uma “pulga atrás da orelha” sobre o tema, mas que ainda não tiveram coragem de escrever sobre. Na verdade, gostaria de já publicar as 22 páginas que escrevi, mas não posso, óbvio.

Homens e mulheres de toda a terra são dotados de um patrimônio comum: um mesmo conjunto de estruturas e funções cerebrais (MECACCI, 1987), mas com uma variada organização funcional, conforme as diferentes experiências que vivenciam. A organização funcional do cérebro está, pois, estritamente relacionada aos aspectos culturais e sociais. Aplicando-se esse fato à percepção dos sons e à compreensão do que ouvimos, observa-se que as percepções e compreensões de uma pessoa podem não ser equivalentes às de seu interlocutor, considerando-se que muitos fatores – os sistemas de referência, o contexto, o conhecimento partilhado entre os interlocutores, o conhecimento de mundo, etc. – estão em jogo na tarefa de compreender, conforme alguns exemplos expostos neste capítulo. Em um deles vimos que o enunciado “açúcar mascavo”, dito pela mãe de duas crianças, foi entendido como “açúcar mais caro”, por uma delas, e como “açúcar mascado”, por outra, pois a palavra “mascavo” ainda não faz parte do sistema de referências de tais crianças em processo de aquisição da linguagem. Compreender, portanto, não é decodificar e, durante a audição, sempre haverá a busca pelo sentido. Não sendo a compreensão uma mera decodificação, não separamos, pois, a linguagem da percepção/audição; não separamos as experiências que vivenciamos do que percebemos via audição.

(…)
Toda afirmação que envolve linguagem e cérebro de um sujeito particular requer cuidadosa análise, levando em consideração a complexidade de ambos. A falta de conhecimento sobre o complexo funcionamento da linguagem, bem como sobre a dinâmica da atividade cerebral por parte de profissionais da saúde, pode levar a afirmações equivocadas a respeito das crianças que aprendem, o que traz conseqüências para a vida delas e de seus pais (…).

*Para quem ainda não ouviu falar sobre o assunto, Processamento Auditivo é um tema difundido entre profissionais da área de saúde e educação, e tem sido relacionado à escrita, à leitura etc. De que forma? Alguns testes (de processamento auditivo) são aplicados e, dependendo das respostas recebidas, os sujeitos sob teste recebem o diagnóstico de desordem do processamento auditivo. Tal diagnóstico acaba justificando, não raras vezes, as supostas dificuldades de escrita e/ou compreensão/interpretação. Falando assim parece que é simples… parece que não há muitos problemas com isso… Será?

Vale ressaltar que a escrita do capítulo somente foi possível pelos conhecimentos adquiridos no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, instituição em que cursei o Mestrado na área de Neurolingüística, sob orientação da profª. Maria Irma Hadler Coudry (Maza). Mais uma vez, Maza, obrigada!