CESPE – TJRJ – Técnico de Atividade Judiciária – questão comentada

novembro 24th, 2008 por Carla Queiroz Pereira

Tenho recebido alguns e-mails com perguntas sobre “dêixis”, “dêiticos”.
Um deles trouxe a seguinte questão do CESPE (TJRJ – Téc. Jud.):

Sabemos que a ferramenta súmula vinculante é poderosa, mas o enunciado tem de ser muito claro e preciso para que os resultados sejam os melhores. Ao tornar-se obrigatória não apenas para as diversas instâncias do Poder Judiciário, mas também para a administração pública, muita boa súmula pode de fato diminuir o número de processos. Na medida em que vincula o poder público a um certo entendimento em questões tributárias ou previdenciárias, por exemplo, ela diminuirá os casos em que o contribuinte sentirá necessidade de recorrer à justiça. Gostaria de ressaltar que a súmula vinculante também aumenta a segurança jurídica. Acabam aquelas situações em que, em um mesmo assunto, um cidadão recebe uma sentença e o seu vizinho, a sentença oposta.

QUESTÃO 9

Assinale a opção em que a forma verbal está empregada em função de dêixis, por referir-se ao sujeito autor do texto.

A) “tem de ser”

B) “tornar-se”

C) “vincula”

D) “gostaria”

E) “recebe”

COMENTÁRIO

No texto a seguir, utilizo um nome próprio (Richard) que não guarda qualquer relação com o candidato que enviou o e-mail.

Eis aqui o comentário:

Comecemos com um exemplo:

Suponha que eu diga a você: “então, Richard, ele esteve em minha casa hoje”. Certamente você me olhará com “aquela” cara e dirá: “Carla, tudo bem, mas quem esteve em sua casa?”. Portanto, Richard, só dá para você saber quem é esse “ele”, se antes do enunciado dito por mim, tivermos falado sobre alguma pessoa (o Paulo, o Fábio, o Adão etc.). Isso significa que “ele” é interpretado deiticamente, depende de outra informação, depende da referência. No caso, se não tivermos o Paulo, o Fábio ou o Adão como referência, “ele” é uma palavra que não tem como ser interpretada.

Mais um exemplo:

Suponha que eu esteja na cidade de São Paulo e diga a você: “aqui tudo é caro”. O advérbio “aqui” organiza as relações espaciais em torno de quem fala. A palavra “aqui”, portanto, é interpretada deiticamente, pois depende do lugar em que o falante está, entende? Uma pessoa que está em São Paulo não pode dizer “lá em São Paulo” no momento em que fala; se estiver, no momento da fala, em São Paulo, vai dizer “aqui em São Paulo”. Entende isso? Isso acontece com todos nós, e a todo tempo, mas nunca paramos para pensar sobre essas coisas, claro.

Se você estiver em São Paulo falando sobre uma viagem que fez para o Canadá, irá dizer “lá no Canadá”, pois o seu corpo, no momento em que você fala, está em São Paulo, não no Canadá. Se ainda quisesse falar sobre o Canadá, mas estando no Canadá, diria “aqui no Canadá”, certo? Da mesma forma que no exemplo anterior, “aqui” e “lá” são interpretados deiticamente.

Com os exemplos você já sabe o que é empregar uma palavra com função de dêixis. Há alguns “tipos” de dêixis: dêixis de pessoa, espaço e tempo. Na questão da prova, o CESPE perguntou qual forma verbal foi “empregada em função de dêixis, por referir-se ao sujeito autor do texto”. Ora, a banca já disse, pelo enunciado, que o verbo que ela está querendo faz referência ao sujeito autor do texto. Logo, você tem que procurar um verbo que faça remissão a quem escreve, o verbo que faz referência ao sujeito. Não é achar o nome da pessoa que escreve. Não.

Examinando cada alternativa:

A) “tem de” faz referência ao enunciado (… mas o enunciado tem de ser…);
B) “tornar-se” faz referência à súmula vinculante;
C) “vincula”. Quem vincula? A súmula;
D) “gostaria”. Quem gostaria? EU. Esse eu é o próprio autor do texto;
E) “recebe”. Quem recebe? Um cidadão.
O único verbo que faz referência ao sujeito autor do texto é “gostaria”. Quem gostaria? EU gostaria. “Gostaria” faz referência ao EU, o sujeito autor.
Acho que, nessa questão, mesmo sem saber o conceito de dêixis, daria para resolvê-la com a informação de que há um verbo que faz referência ao sujeito autor do texto.

GABARITO: D