Questão FGV – Você já ouviu falar em dêixis… dêiticos?

novembro 4th, 2008 por Carla Queiroz Pereira

As provas de concursos da FGV são conhecidas por cobrarem conceitos pouco vistos em provas da ESAF ou do CESPE. Na prova para Fiscal de Rendas da Sec. Est. Fazenda/RJ – 2008, por exemplo, algumas questões de português exigiram conhecimento de conceitos bem específicos; eu diria até que exigiram conceitos semânticos mais conhecidos por quem atua na área de Lingüística. Veja só a questão seguinte:

5. No trecho “O avanço deste não acarreta necessariamente impacto positivo
daquela”, os pronomes demonstrativos exercem, respectivamente, função:

(A) anafórica e catafórica.
(B) catafórica e catafórica.
(C) anafórica e anafórica.
(D) catafórica e anafórica.
(E) dêitica e dêitica.

Bom, o trecho do enunciado da questão é referente a um dos textos expostos na prova. Se o candidato consultasse o texto para entender a que os pronomes “deste” e “aquela” faziam referência, iria ler o seguinte: “(…) A alocação de novos recursos nada tem a ver, em princípio, com o impacto tecnológico. O avanço deste não acarreta necessariamente impacto positivo daquela”.

O uso do pronome demonstrativo “deste” serve para retomar outra passagem do texto, ou seja, faz referência ao impacto tecnológico; o pronome demonstrativo “daquela”, por sua vez, faz referência à alocação de novos recursos. Esse fenômeno, chamado anáfora, garante a coesão do texto e diz respeito a pessoas e objetos, tempos, lugares, fatos etc. mencionados em outros pontos do mesmo texto. Na questão, portanto, os pronomes “deste” e “daquela” exercem função anafórica (alternativa C).

Há casos, porém, em que os termos anunciam/antecipam outros. Por exemplo, na frase “Minha irmã disse isto: já está na hora de almoçar”, isto antecipa já está na hora de almoçar. Esse fenômeno é chamado de catáfora.

Na alternativa E, vemos a função dêitica. Você já ouvir falar nisso? Conforme explicação do prof. Rodolfo Ilari/Unicamp, em seu livro “Introdução à semântica: brincando com a gramátia”, chamamos de dêiticas as expressões que se interpretam por referência a elementos do contexto extra-lingüístico em que ocorre a fala. A dêixis diz respeito principalmente às pessoas que participam da interação verbal, ou a lugares e tempos que são localizados a partir da situação de fala. Ela realiza uma espécie de “ancoragem” da fala na realidade. Ocorre sobretudo por meio dos pronomes, dos artigos, dos tempos dos verbos e de certos advérbios.

Para entender a importância dessa “ancoragem”, convém imaginar a dificuldade que teríamos para entender de quem partiu um pedido de socorro trazido pelo mar numa garrafa fechada, sem data, sem referência a lugares e assinado por um desconhecido (Ilari, 2001).

Um outro exemplo: imagine que você trabalhe em uma empresa e está ansioso por uma reunião que ainda deve acontecer. Está tão ansioso que alguns colegas até sabem disso. Antes de a esperada reunião acontecer você é convocado para fazer uma viagem, também pela empresa. Após 4 dias fora, ao entrar em casa, no final da manhã, encontra o seguinte bilhete próximo à porta de entrada:

A questão é: Quem esteve em sua casa? Em que dia esteve? A reunião já aconteceu ou não?
Tais perguntas surgem, portanto, porque “estive” e “hoje” são expressões interpretadas deiticamente. O “hoje” do autor do bilhete pode ser diferente do “hoje” do destinatário. Sem a data no bilhete, por exemplo, você não conseguirá saber se a tão esperada reunião já aconteceu ou não.